Especialistas da FAO amenizam críticas ao biocombustível

Para técnicos, etanol não é o principal fator na alta dos preços dos alimentos.

Valquíria Rey, BBC

03 de junho de 2008 | 04h42

A julgar pela opinião de especialistas da FAO ouvidos pela BBC Brasil, os biocombustíveis podem sair da conferência do órgão que começa nesta terça-feira em Roma sem a imagem de vilão da crise dos preços dos alimentos que vinha se desenhando nos últimos meses."O que nós sabemos hoje, um pouco mais do que sabíamos anteriormente, como resultado de vários estudos, é que (os biocombustíveis) são um fator contribuinte, mas não se pode quantificar como fator principal", disse à BBC Brasil Cristina Amaral, coordenadora do grupo da FAO criado em dezembro para lidar com a crise."Contribui, mas não é o vilão da crise, não é o fator principal. Tem muitos fatores que estão sendo reconhecidos em nível mundial como culpados pela crise", acrescenta Olivier Dubois, coordenador do grupo de bionergia da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação).A produção de biocombustíveis a partir de produtos agrícolas chegou a ser classificada pelo ex-relator especial da ONU para o Direito ao Alimento, Jean Zigler, de um "crime contra humanidade".Na visão de Ziegler, a produção de etanol reduziria a de alimentos, provocando escassez e elevação de preços.ArrozNa semana passada, em entrevista à BBC Brasil, o novo relator Olivier De Schutter, também já havia se distanciado das afirmações mais contundentes de Ziegler.De acordo com Dubois, alguns estudos já apontaram os biocombustíveis como responsáveis por entre 20% e 30% da alta dos preços dos alimentos.A própria FAO já trabalhou com valores entre 10% e 20%. E um novo relatório com uma avaliação mais precisa deve ser divulgado em breve."O impacto exato sobre o preço depende das condições de cada país, se é importador ou exportador de alimentos, do tipo de sistema de produção, da matéria-prima empregada", disse Dubois."Mas não faz sentido falar em valor médio", disse o especialista. "Alimentos como o arroz aumentaram de preço e isso não tem nada a ver com a produção de biocombustível.""Dicotomia"Para o oficial especial de políticas agrícolas da FAO, Carlos Santana, a decisão dos Estados Unidos de incentivar a produção de etanol de milho contribuiu para a crise por ter sido tomada em um momento crítico."Paralelamente ao aumento do preço do petróleo, a mudança no tipo de consumo de países emergentes e a especulação nas bolsas mundiais, a decisão dos Estados Unidos de incentivar a produção do milho também contribuiu para a crise", afirma Carlos Santana, oficial especial de políticas agrícolas da FAO."Esse conjunto de fatores colocou frente a frente, de uma maneira contraposta, alimentos e bioenergia. Mas, na realidade, não existe essa dicotomia."Na opinião de Cristina Amaral, os mercados não tiveram capacidade de resposta a um aumento da procura num período de estoques mundiais muito baixos - menor nível dos últimos 25 anos -, mudança na qualidade do consumo e procura crescente por bens alimentares sempre mais diversificados.Ela também assinala a seca na Austrália e produções baixas em várias zonas produtoras como fatores conjunturais que contribuíram para a crise. "Nesse momento, nós sabemos que muito possivelmente a produção agrícola em 2008 será superior a de 2007"."Mas esse crescimento global da produção agrícola não é ainda suficiente para fazer baixar significamente os preços."SubsídiosA avaliação de que não há necessariamente uma incompatibilidade entre a produção de alimentos e biocombustíveis é compartilhada por Olivier Dubois, que vê o Brasil na vanguarda mundial da produção de biocombustíveis.Dubois defende o fim do subsído dos Estados Unidos ao etanol de milho, o que potencialmente abriria o mercado americano ao álcool de cana brasileiro mais eficiente e mais barato.Para Dubois, mesmo no caso do milho, é possível balancear a produção de energia com a de outros alimentos, bastando utilizar o subproduto para alimentar o gado, misturando ou fazendo rotação de culturas.Dubois também defende que sejam colocadas em prática as pesquisas sobre o biocombustível de segunda geração, feito a partir da celulose, de ervas, pastagens e, em vez do grão e da semente, a utilização de toda a planta.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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