Especulação com juros

De todos os lados espocam reclamações de que os juros no chão, lá nos Estados Unidos, provocam distorções no mercado financeiro e estimulam a especulação com juros.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

São as chamadas operações de arbitragem ou carry trade. Basicamente, consistem em levantar empréstimos onde os juros são muito baixos (estão perto de zero nos Estados Unidos e no Japão, por exemplo) e reaplicar os recursos onde são mais altos, caso do Brasil e da maioria dos países emergentes. É ganhar dinheiro no mole e na esperteza.

O efeito mais perverso dessa prática é a forte entrada de dólares nos países que sofrem essa especulação e, simultaneamente, a valorização de suas moedas. Há meses o presidente do Banco da Inglaterra (banco central), Mervyn King, se queixa de pressões insuportáveis sobre a libra esterlina em consequência da diferença de juros. E eles são de apenas meio ponto porcentual ao ano.

Quinta-feira, o vice-presidente do banco central russo, Alexei Ulyukayev, advertiu que o governo de Moscou estuda a criação de um imposto sobre todas as operações de câmbio para evitar esse jogo. Ulyukayev apresenta números: embora tenha aumentado suas reservas em US$ 21 bilhões com a compra de dólares, apenas nos últimos 45 dias o rublo se valorizou 11%.

As fortes altas das commodities (de 19% neste ano) e do petróleo (de 80%) também vêm sendo atribuídas a operações desse tipo. O especulador toma recursos emprestados a juros baixíssimos e se põe a comprar ativos nas bolsas de mercadorias.

Aqui no Brasil, há anos analistas e exportadores denunciam que a brutal diferença entre os juros é uma das principais responsáveis pela entrada selvagem de capitais e pela excessiva valorização do real diante do dólar. Há um mês, o governo Lula instituiu um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2% na entrada de capitais destinados a aplicações em renda fixa e em ações.

As estatísticas sobre o fluxo de moeda estrangeira sugerem que essas práticas não são tão relevantes quanto se diz. A forte entrada de moeda estrangeira e a valorização do real são mais explicáveis pela confluência de três fatores: a força das exportações de commodities (doença holandesa), o forte interesse estrangeiro pelas ações brasileiras e os investimentos de risco (Investimento Estrangeiro Direito).

No entanto, ainda que as estatísticas não demonstrem, o jogo com juros pode estar de fato ocorrendo com intensidade, mas de uma forma diferente da imaginada pela maioria dos analistas.

Provavelmente a entrada de capital especulativo para tirar proveito dos juros seja de fato irrelevante. Mas há razões para acreditar em que, em consequência dos juros altos que prevalecem no mercado brasileiro, o capital que antes geralmente saía do País (seja pelo câmbio oficial, seja por outros caminhos) agora prefere ficar aqui. E a reversão do fluxo de moeda estrangeira pode estar fazendo muita diferença nas cotações do câmbio.

Estatisticamente é difícil conferir essa prática porque não há movimentação no câmbio que a possa comprovar. Mas, se o efeito relevante não são os dólares que chegam e sim os que deixam de sair, perdem sentido políticas destinadas a conter a entrada de moeda estrangeira no Brasil, como a cobrança de IOF.

Confira

Deflação no Japão - Sexta-feira, o governo japonês avisou que a economia nacional avançou para mais um período de queda constante de preços.

É uma situação que traz tantos ou mais problemas do que uma forte inflação. As vendas despencam porque o consumidor entende que, se adiar suas compras, pagará menos; a arrecadação cai e aumenta o déficit; e as dívidas ficam mais altas.

Em seguida, vêm os efeitos secundários: queda dos investimentos, do emprego e do salário. O banco central não tem como reduzir ainda mais os juros para reativar a economia. Estão a 0,1% ao ano.

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