Esquecida, região ainda vive na miséria

Um século depois, municípios do Contestado onde ocorreram batalhas ainda têm os piores índices sociais do Estado

O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h08

A região do Contestado é um Nordeste brasileiro em qualidade de vida encravado numa Europa. As cidades onde ocorreram os mais dramáticos combates entre militares e caboclos apresentam índices de desenvolvimento humano semelhantes aos dos grotões nordestinos - enquanto os índices da capital, Florianópolis, e de cidades do Vale do Itajaí e do oeste catarinense se comparam aos de países europeus. E, a julgar pelos repassasses de verbas federais, a região do Contestado deverá continuar uma ilha de pobreza no Sul do País.

Os indicadores confirmam que, um século depois do conflito, o Contestado continua uma região abandonada. Dos sete mil moradores de Timbó Grande, município onde ocorreu a batalha final de Santa Maria, 44,2% são pobres ou indigentes. Segundo dados do Censo de 2010, 39% das famílias têm renda per capita de até meio salário mínimo - a média de Santa Catarina nessa faixa é de 13%.

A desigualdade tem acompanhado o avanço da indústria de pinus no município. Desde que surgiram as plantações na região, no começo dos anos 1990, a disparidade entre classes aumentou. A participação dos 20% mais pobres na renda caiu de 2% em 1991 para 0,9% em 2000.

Outros indicadores reforçam a situação de penúria da região. De cada mil crianças que nascem em Timbó Grande, 28 morrem antes de completar um ano, de acordo com o Ministério da Saúde - mais que o dobro da média do Estado, que é de 12 crianças mortas para cada mil. Além disso, 37,7% das crianças nascidas no município são de mães adolescentes.

Para reverter a situação, o Contestado precisaria receber investimentos maciços. Ao longo de 2011, porém, o governo federal priorizou, nas suas ações de melhoria dos índices de desenvolvimento humano, as grandes cidades e os municípios médios e pequenos do Vale do Itajaí, do sul e do extremo oeste de Santa Catarina, onde o porcentual de miséria não passa de um dígito.

Nos últimos 12 meses, o governo federal destinou a cada habitante da capital, Florianópolis, o equivalente a R$ 533 - oito vezes mais que o gasto com um morador de Timbó Grande (R$ 60 por pessoa).

Preconceito. Nas cidades do oeste catarinense, o Contestado virou nome de universidade, gráfica, bar, lojas e mercearias. Placas nas estradas informam que o viajante está no Vale do Contestado. Em Caçador, o governo estadual mantém um museu dedicado ao conflito numa réplica da estação ferroviária de madeira da cidade. Mesmo com toda essa badalação, as memórias da guerra ainda deixam encabulados os descendentes dos rebeldes.

Desde o fim do conflito, famílias caboclas procuram negar envolvimento nos combates. A discriminação social marcou as gerações do pós-guerra. Em Fraiburgo, município dominado por descendentes de europeus, os caboclos estão isolados em bolsões da área rural. Para chegar às suas casas, é preciso percorrer estradas margeadas por grandes plantações de maçãs. A pobreza das famílias caboclas é camuflada pelos bons índices de desenvolvimento humano do município.

Vivem na região onde existiu o reduto de Taquaruçu 11 famílias de sobrenome Palhano. Elas mantêm culturas de subsistência e trabalham em frentes temporárias nas plantações de maçãs. Ainda hoje, muitos avaliam que falar da guerra é um risco para quem necessita do emprego nas fruticulturas. As casas de madeira dos Palhano estão a cerca de dois quilômetros do local exato do antigo reduto. Desde os anos 1950, os Palhano estão cercados pelas propriedades dos "gringos", como chamam os descendentes de italianos e alemães que compraram posses na região.

"Os Palhano sofreram e sofrem muito preconceito", afirma a professora aposentada e "gringa" Lora de Lorenzi Felisbino, 62 anos. "Quando minha família se mudou para cá, muitos diziam: 'Vocês estão indo morar perto de bandidos'", conta a professora. "Eles (os Palhano) são pessoas muito tranquilas. Costumam dizer que trabalham apenas para viver. Diferentemente da gente, que viveria apenas para comprar o caixão."

Para chegar a outros locais históricos da guerra é preciso paciência. As estradas do Contestado continuam de terra e cascalho, inclusive as de acesso a cidades. Santa Maria, a "cidade santa" de Adeodato e Maria Rosa, foi tomada por tanques de reprodução de tilápias e carpas, num projeto fracassado de pesque-pague, nos anos 1990. O cemitério dos jagunços ficou debaixo d'água.

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