Esquerda é favorita no segundo turno presidencial no Uruguai

Os uruguaios foram em massa às urnas neste domingo no segundo turno da eleição presidencial, na qual o ex-guerrilheiro José Mujica é o favorito com a promessa de manter a bem-sucedida política econômica do governo de esquerda.

JULIO VILLAVERDE E PATRICIA AVILA, REUTERS

29 de novembro de 2009 | 19h28

O candidato da governista Frente Ampla enfrenta o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional (PN), de centro-direita.

"No primeiro turno, em outubro, havia mais incerteza, não se sabia quem iria passar adiante. Neste já está decidido que Pepe (Mujica) vai ser presidente e o fato de Pepe ser presidente vai marcar com fogo a história do Uruguai", disse Cidy Simonena, uma administradora de 33 anos.

Aclamado por dezenas de seguidores, que o saudaram com fogos e gritos de apoio na seção eleitoral, Mujica, um agricultor de 74 anos, foi um dos primeiros a votar no bairro operário de Cerro, em Montevidéu.

O candidato pegou em armas na década de 1960, foi preso pela última vez um ano antes do golpe de Estado de 1973, torturado pelos militares e libertado depois da restauração da democracia, em 1985. Ele disse que passaria o resto do dia em sua granja nos arredores da capital uruguaia.

O presidente Tabaré Vázquez, um socialista moderado da Frente Ampla, que deixará o poder com popularidade recorde, também votou muito cedo, entre gritos de "volta, volta" de eleitores que estavam na seção, em referência às eleições de 2014.

Ao contrário do habitual, Vázquez estava relaxado. Ele permaneceu quase meia hora na seção eleitoral falando com dezenas de pessoas que lhe pediam autógrafos e também respondeu a todas as perguntas da imprensa.

Lacalle, advogado e proprietário de terras de 68 anos, que governou o país adotando políticas neoliberais entre 1990 e 1995, votou mais tarde, rodeado de partidários com bandeiras do PN. Ele disse que, qualquer que seja o resultado da eleição, dialogará com Mujica.

"Acredito que devemos isso, temos essa obrigação porque cada um de nós terá mais de um milhão de pessoas por trás que lhe dedicaram confiança. Não é uma questão de opção pessoal", afirmou.

Depois de votar, o presidente Vázquez pediu que a jornada terminasse "em concórdia, fraternidade e unidade nacional, porque amanhã começa outro dia, outro tempo".

O candidato da Frente Ampla venceu o primeiro turno, em outubro, com quase 48 por cento dos votos válidos, mas como não obteve a maioria absoluta teve de ir ao segundo turno com Lacalle, que conquistara 29 por cento.

Para a votação definitiva, seis pesquisas de intenção de voto deram na quarta-feira ao ex-guerrilheiro um apoio estimado entre 49,1 e 50 por cento, diante de 41 a 42,1 por cento para Lacalle.

No Uruguai o voto é obrigatório e estão habilitadas a votar 2,56 milhões de pessoas, de um total de 3,3 milhões de habitantes. Milhares de residentes no exterior chegaram nos últimos dias ao país para participar da eleição.

Vázquez, oncologista de 69 anos, levou a esquerda pela primeira vez ao poder na história do Uruguai ao derrotar no primeiro turno Jorge Larrañaga, atual companheiro de chapa de Lacalle.

MUJICA: CONTINUIDADE

O governo da Frente Ampla aplicou uma ordenada política econômica que permitiu ao Uruguai evitar entrar em recessão na atual crise financeira mundial. Também atraiu mais investimentos, ao afastar qualquer temor que uma gestão de esquerda pudesse provocar.

Ex-militante do grupo de guerrilha urbana Tupamaro, Mujica prometeu seguir a mesma política econômica de Vázquez, esboçada pelo ex-ministro e seu candidato a vice, Danilo Astori.

"Não se deve esperar grandes novidades, exceto aquelas que possam derivar de conjunturas políticas distintas, mas na realidade o programa, o compromisso político é de continuidade e afirmação das conquistas que o governo atual obteve", disse Mujica no sábado, falando à imprensa estrangeira.

O candidato também descartou a possibilidade de uma guinada mais à esquerda em política externa e insistiu que sua maior afinidade é com o moderado presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Diante da bem-sucedida gestão da Frente Ampla na área econômica, o próprio Lacalle se absteve de anunciar mudanças drásticas se chegar à Presidência, limitando-se a prever a redução de alguns impostos.

(Reportagem adicional de Conrado Hornos)

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