Esta assustadora consciência do próprio poder

Denise Weinberg explica o quanto foi perturbador fazer a Ruiva de Salve Geral

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Denise Weinberg chega esbaforida. São apenas dez minutos, mas ela se desculpa como se tivesse atrasado uma hora. "Peguei um trânsito danado", explica. Denise faz as honras da casa, no 11º andar do Sesc da Av. Paulista, onde ensaia a peça Da Possibilidade de Alegria no Mundo. Ela se considera num momento especial, de volta à casa. Denise tem estado em todas as mídias, teatro, cinema, televisão, mas a primeira é seu território. Só que, embora feliz, ela não perdeu o senso crítico.

"Estou em São Paulo há 23 anos, desde que viemos - o Grupo Tapa - do Rio. Sempre vivi de teatro, mas agora esse teatro tem 60 lugares, não dá para viver de bilheteria." Se o teatro fosse maior, o público não iria. "Não estou me lamentando. Sou muito crítica e estou fazendo uma avaliação que, mais do que sobre o teatro, é sobre a cultura brasileira. É um momento complicado para todos." O próprio Teatro do Sesc Paulista, em que estreia hoje, é um espaço enjambrado, como existem outros naquele prédio. É a casa dela, mas não a casa ideal. E, apesar disso, quando as luzes se acenderem hoje, o que o público vai ver é uma atriz afinada com as possibilidades de alegria no conturbado mundo atual.

Denise Weinberg ainda pode ser vista no cinema, como a Ruiva de Salve Geral. Embora o filme de Sérgio Rezende tenha tido um desempenho decepcionante na bilheteria, ficando aquém do milhão de espectadores com que a produção sonhava (no mínimo), está sendo importante para Denise. Ela tem outro filme no forno, pronto para sair - Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, no qual faz um pequeno, mas decisivo, papel. Em breve, roda um curta - de graça -, pelo prazer de participar. Na TV, na Globo, grava suas cenas na minissérie sobre Dalva de Oliveira, de Maria Adelaide Amaral, no papel da mãe da cantora. Você deve se lembrar das cenas de Denise em outra minissérie, Alice, da HBO, um projeto de Karim Aïnouz, no qual fazia uma lésbica. Denise não teme os papeis. Seja uma "sapata", com o perdão do preconceito, ou uma pistoleira, ela gosta de ousar, transgredir. Não lhe peçam para fazer figuras anódinas. Nossa atriz representa na expectativa de que as personagens contribuam para seu crescimento.

Nenhuma a perturbou tanto quanto a Ruiva. "Quando terminamos de filmar, fiz um roteiro de um mês pela Andaluzia para conseguir me desvencilhar da Ruiva." E ela confessa - "Trabalho para poder viajar; adoro." A perturbação foi ainda maior quando se viu no filme pela primeira vez. Denise precisou sair, caminhar um pouco. No começo, não ia fazer o papel. Ligada ao diretor Rezende desde Canudos, ele lhe pediu que fizesse a seleção de elenco para Salve Geral. Como o filme se passa em São Paulo, sobre o dia em que o PCC parou a cidade, Rezende queria usar o maior número possível de atores do teatro paulista. Denise fez o que nunca havia feito - decupou o roteiro, estudou cada personagem em busca do melhor intérprete. A protagonista seria Andrea Beltrão, pois Rezende escreveu (com Patricia Andrade) Salve Geral para ela. Às vésperas da filmagem, sem atriz definida, o diretor propôs - "Faça você, Denise."

Ela tomou um susto. A Ruiva transita por áreas perigosas de sensualidade e poder. Denise foi fazer dança do ventre para sentir a personagem, colocou aquelas unhas longas. "Quando a gente muda fisicamente, o mundo muda também. Passei a ter mais consciência da minha feminilidade, os homens me chamavam de gostosa na rua." Seria fácil transformar a Ruiva numa vilã de carteirinha, em oposição à personagem de Andréa Beltrão. São os arquétipos da mãe e da p..., mas as duas atrizes (e o diretor) preferiram seguir o caminho mais árduo, trabalhando com as ambivalências. A Ruiva pode ser durona - "Se vacilou, sobe (morre)" é seu lema -, mas o filme explora nuances. A personagem exige e desafia, diferentemente da mãe de Dalva. Denise faz com gosto o texto de Maria Adelaide Amaral, mas o esquema "industrial" da Globo a assusta. "Admiro quem tem estrutura para isso, mas não é para mim." As reclamações sobre o momento atual não a impedem de seguir fazendo outra coisa de que gosta, lecionar. O jovem hoje tem dificuldade de ler, ou melhor, de entender o que está lendo, mas ela se sente recompensada quando encontra suas "pepitas de ouro". São como possibilidades de alegria no mundo moderno.

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