'Estado' lança acervo completo hoje na internet

Um dos mais ricos arquivos jornalísticos do País, com 2,4 milhões de páginas publicadas desde 1875, ganha versão digital

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2012 | 03h04

O 'Estado' lança hoje na internet a coleção completa de 137 anos do jornal com 2,4 milhões de páginas. A cerimônia de lançamento, no auditório do Ibirapuera, com apresentação do cantor e ex-ministro Gilberto Gil, será transmitida ao vivo no portal estadão.com.br.

Entre os convidados estão os ministros da Cultura, Ana de Hollanda; da Educação, Aloizio Mercadante; dos Esportes, Aldo Rebelo; o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab, além de empresários, historiadores e vários artistas. A história do jornal será mostrada em uma apresentação multimídia, com destaque para os grandes acontecimentos que marcaram a cobertura jornalística desde os tempos do Império.

Ao longo da sua existência, o jornal acompanhou duas viradas de milênio, duas guerras mundiais e centenas de outros conflitos nacionais e internacionais, noticiou seis reformas constitucionais e nove trocas de moeda. No campo esportivo, o jornal registrou 19 copas mundiais de futebol.

No período republicano, enfrentou a ditadura do Estado Novo, a redemocratização e outra ditadura a partir de 1964. O portal do acervo na internet vai mostrar aos leitores mais de mil páginas censuradas pela ditadura militar, permitindo a comparação entre os textos originais e as páginas como foram publicadas, com versos de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

Entre os destaques do acervo do Estado estão as páginas do escritor Euclides da Cunha, enviado pelo diretor do jornal, Julio Mesquita, para cobrir a revolta de Canudos. A série de reportagens deu origem, em 1902, ao livro Os Sertões, um clássico da literatura mundial. O livro narra como o Exército enfrentou os seguidores de Antônio Conselheiro, que resistiam à Proclamação da República. Euclides partiu de São Paulo no dia 1.º de agosto de 1897. Dono de um texto notável, o escritor apresenta não apenas aspectos físicos da região como analisa as estratégias do levante.

Outro acontecimento histórico noticiado nas páginas do Estado é a Abolição da Escravatura. No arquivo digital, será possível ler o conteúdo do editorial "Glória à Pátria", publicado no dia 13 de maio de 1888, no qual o jornal, então com 13 anos de existência, saúda o decreto da Abolição como o início de novos tempos no País.

O texto da época exalta o trabalho abolicionista de Américo de Campos e de Luís Gama, baiano, filho de escrava com branco português, vendido ainda criança em Salvador, que, em São Paulo, conquistou a liberdade e se transformou em um dos principais ativistas da abolição.

Modo de vida. Nas páginas da primeira década de vida do jornal, agora digitalizadas e oferecidas no site do acervo, é possível encontrar detalhes do modo de vida da época nos tempos do Império, fortemente marcado pela escravidão. Na seção de anúncios, donos de negros escravizados ofereciam recompensa para quem capturasse os escravos fugidos.

Lembrada como um dos principais acontecimentos do ano de 1875 na cronologia da obra maior de Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império (Topbooks), a circulação do jornal é destaque no quadro de fatos contemporâneos citados na publicação.

Na obra, Nabuco, outro abolicionista convicto, descreve a história de seu tempo com base na atuação do pai, Nabuco de Araújo, conselheiro do imperador e figura central na campanha da legalidade no fim da escravidão.

Em um quadro na página 1.340, Um Estadista do Império destaca, além do nascimento do jornal, a falência dos bancos Mauá e Nacional como acontecimentos relevantes no País.

Nascido na Rua de Palácio, 14, em uma São Paulo que já vivia o crescimento com base em uma economia agrícola, o jornal apresenta no primeiro texto da edição número 1 outra marca que nortearia o futura da publicação - a defesa da liberdade de imprensa -, preceito que seria obrigado a enfrentar pelo caminho em pelo menos dois momentos cruciais no século 20: na ditadura de Getúlio Vargas e, mais recentemente, durante o governo militar dos anos 60 e 70.

"Não sendo orgam de partido algum nem estando em seus intuitos advogar os interesses de qualquer d'elles, e por isso mesmo collocando-se em posição de escapar ás imposições do governo, ás paixões partidarias e ás seduções inherentes aos que aspiram ao poder e seus proventos, conta a Província de São Paulo fazer da sua independencia o apanagio de sua força e a medida da severa moderação, sisudez, franqueza, lealdade e criterio em que fundará o salutar prestigio a que destina-se a imprensa livre e consciente", diz o texto.

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