'Estamos inventando uma forma de colaboração cultural'

O físico japonês Osamu Motijima, de 64 anos, é uma das maiores autoridades na pesquisa da fusão nuclear. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, o cientista deixa claro o seu entusiasmo pelo estudo dessa tecnologia.

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h04

O que significa para o Iter o lançamento do edifício-sede, quinta-feira, e qual o próximo setor do projeto a ficar pronto?

Tem enorme importância. Para o projeto e a comunidade que estuda a fusão nuclear no mundo todo. É o lugar onde concentraremos agora nossos trabalhos de pesquisa, com centenas de físicos, engenheiros, técnicos e pessoal de apoio, representantes das 34 nações envolvidas no Iter. A dimensão do que buscamos é tal que nos próximos meses vamos inaugurar uma extensão do edifício-sede para acomodar outras 350 pessoas.

O senhor está satisfeito com o cronograma do projeto?

Como todos aqui, gostaria, claro, que tudo pudesse se desenvolver mais rapidamente. Mas é preciso entender que construir algo tão complexo, gerenciar a contribuição dos sete membros do Iter representa uma tarefa imensamente difícil. Fomos obrigados a mudar algumas coisas nas áreas técnica e gerenciamento para manter o planejamento original. Criamos o Unique Iter Team (Time Único do Iter), o que nos permitirá maior integração entre os participantes. Penso ser a chave para atingirmos nossos objetivos no prazo e orçamento programados.

Qual o desafio científico e de engenharia que vocês continuam enfrentando?

Como os componentes do Iter são produzidos pelas nações que fazem parte do projeto para serem depois montadas aqui na França, nosso maior desafio será integrar esses milhares de peças e um único e complexíssimo equipamento operacional.

Como conciliar a convivência de cidadãos de culturas tão distintas num espaço confinado por tanto tempo?

Esse aspecto é, a meu ver, uma das riquezas do Iter. Não estamos construindo apenas uma máquina que abrirá o caminho para uma nova era na obtenção de energia sã, estamos inventando uma forma de colaboração cultural que também servirá de modelo para outras iniciativas da humanidade.

O senhor teme que pode não funcionar?

Não. O que as pessoas têm de saber é que o Iter não vem do nada. Já é o resultado de mais de meio século de constante e espetacular progresso na pesquisa da fusão nuclear. Poucos se dão conta de que, em termos de performance, a fusão avançou mais que os microprocessadores, por exemplo. O grupo internacional de trabalho da fusão consegue (laboratorialmente) dobrar o potencial de energia a cada 18 meses enquanto o dos microprocessadores o faz a cada dois anos. Você deveria me perguntar se vai funcionar bem, muito bem ou excepcionalmente bem. Pessoalmente apostaria em excepcionalmente bem.

Há dificuldades no Iter por causa da crise financeira mundial? Os US$ 15 bilhões (R$ 32 bilhões) de investimento total estimados serão suficientes para completar o projeto?

Não há como ser preciso no orçamento por causa da diversificação do projeto, mas o custo total da construção não deve ultrapassar os U$ 15 bilhões, realmente uma soma grande. Mas lembre-se de o tempo da obra é de dez anos e dividida entre 34 nações cujo Produto Interno Bruto (PIB) representa 80% do PIB mundial. Posso lembrá-lo, ainda, que US$ 15 bilhões foi quanto Londres gastou para promover e organizar a Olimpíada e representam US$ 3 bilhões a menos do que será gasto pela Emirates Airlines para a compra das 50 aeronaves encomendadas.

O que faz essas nações investirem elevadas somas no Iter, a fusão será a forma de energia do futuro?

A civilização terá necessariamente de dispor de energia limpa e segura no futuro. O consumo mundial cresceu 50% desde 1973 e crescerá outros 60 % antes de 2030, que está aí, é já amanhã. A fusão não pretende ser a resposta para esse problema, mas pode ser uma importante contribuição. A fusão tem atrativos que outras formas de energia não oferecem. Por exemplo: com uma grama do nosso combustível (o abundante Hidrogênio) obtemos a mesma quantidade de energia de 8 toneladas de óleo. E a fusão é segura, limpa, inesgotável e disponível universalmente. Esta particularidade, em especial, tem enorme importância. Muitas das tensões do mundo, hoje, decorrem da necessidade de se ter acesso a fontes de energia. Se você quiser, podemos dizer que o Iter contribui para a paz mundial.

Existe já uma definição de como ficará a questão dos direitos tecnológicos depois de o Iter concluir a pesquisa da fusão?

Esse é outro ponto interessante do projeto. Todos os resultados científicos e avanços alcançados pelo Iter serão compartilhados entre os sete membros participantes. Vão aprender aqui como realizar a fusão para depois instalarem suas próprias plantas industriais a fim de gerar energia.

O Iter não é uma unanimidade na comunidade científica. Qual a sua resposta aos críticos do projeto, que prefeririam, por exemplo, ver esse dinheiro investido no desenvolvimento de outras formas de energia, como solar e eólica?

De acordo com o relatório anual do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep), em 2011 o total mundial de investimento em energias renováveis foi de US$ 257 bilhões (R$ 540 bilhões), o que é ótimo em razão de a energia solar e eólica terem importante participação no futuro das civilizações. Mas, por favor, compare essa soma com os US$ 15 bilhões que serão investidos no Iter em dez anos de obras. Repito, dez anos. Você entenderá melhor em que contexto nos inserimos.

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