'Estão vasculhando tudo', diz Weber em ligação a Adams

Luís Inácio Adams, advogado-geral da União, reagiu com cautela e aparente indiferença ao telefonema que recebeu de seu adjunto, José Weber Holanda, menos de uma hora depois da deflagração da Operação Porto Seguro, em 23 de novembro.

FAUSTO MACEDO E BRUNO BOGHOSSIAN, Agência Estado

27 de janeiro de 2013 | 08h00

Weber diz que a Polícia Federal vasculhava sua casa, em Brasília. "Aaaah, tá!", responde o chefe da AGU. Eram 6h43 da manhã. O áudio da ligação está disponível no site estadão.com.br.

Adams não demonstra surpresa com a notícia de que seu auxiliar estava na mira da PF, por suspeita de ajudar a quadrilha que fraudava pareceres técnicos dentro do governo federal. O advogado-geral evita esticar a conversa, que durou 2min38s. Nesse período, repetiu quatro vezes para Weber: "Tá bom".

O grampo não envolve Adams com o grupo investigado, mas faz parte dos 25.012 telefonemas captados na Porto Seguro. "Já está de pé?", pergunta Adams ao receber a ligação de Weber naquela sexta-feira.

"Aconteceu uma coisa assim... Eu estou com uma busca e apreensão na minha casa, da Polícia Federal", comunica Weber.

Diante da indiferença do chefe, o advogado adjunto reage: "Tá sabendo alguma coisa disso?", pergunta, aflito. "Não! Pois é, me ligaram e estão numa sala da AGU. Então deve ser a tua", responde o advogado-geral.

Weber comenta que o motivo da ofensiva da PF deve ser "alguma coisa ligada com a Ilha de Cabras". Na Ilha de Cabras e na Ilha de Bagres, ambas no litoral paulista, o ex-senador Gilberto Miranda - denunciado pela Procuradoria-Geral da República como beneficiário do esquema de compra de pareceres técnicos - pretendia montar grandes empreendimentos, mas dependia de trâmites de órgãos federais.

Com a PF vasculhando sua residência, Weber explica por telefone ao chefe da AGU sobre a "Ilha de Cabras". "Desde a época do Toffoli (Antonio Dias Toffoli, ex-chefe da AGU, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal), que pediu para a gente entrar como interessado no processo. E até hoje a gente não conseguiu entrar."

Adams quer saber se a PF ainda está na casa de Weber. "Os caras tão aí ainda?". E ouve do seu auxiliar: "Eles estão aqui em casa, chegaram agora. Estão vasculhando tudo."

Meses antes, a PF havia interceptado uma ligação em que Miranda faz cobranças sobre o andamento do processo da Ilha de Cabras a Paulo Vieira, então diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), apontado como operador do esquema. Era 26 de abril, 20h35. "Sabe o que eu tô preocupado? Você falou pra mim: eu estudei, eu já fiz, eu já tô pronto, tudo, porra! Eu tô preocupado com Cabras."

Paulo respondeu: "Eu não tô, Gilberto. Eu falo pra você: a maioria das coisas que você me apresentou até hoje, que eu entrei, você ganhou." Miranda insistiu. "Mas, Cabras nós estamos perdendo, nós estamos no último estágio pra perder."

Paulo procurou acalmar o ex-senador. "Nós não vamos perder. Gilberto... Nós estamos enfrentando alguns acidentes de percurso, fora da minha formulação, pelas contingências do assunto e nós não vamos perder, cara. Por que você exige tanto do pobre de mim?... Relaxa, homem, relaxa que vai dar certo."

Negociação

O áudio dos telefonemas reforça a suspeita de que o grupo contou com a ajuda de Weber para atender aos interesses da organização. Havia indícios de que ele teria recebido vantagens, como passagens de navio.

Em 29 de outubro, Paulo conta a Miranda que se reuniria com Weber no dia seguinte para tentar convencer o consultor-geral da União. Arnaldo Godoy, a adotar uma posição que beneficiaria o empreendimento do ex-senador na Ilha de Bagres.

"Amanhã nós ficamos de reunir, eu e o ''W''. Pra gente tomar uma decisão. Se a gente vai tentar convencer o rapaz a adotar o entendimento nosso ou se ele vai escrever ele mesmo", diz Paulo. "Pelo amor de Deus, Paulo, tenta convencer o homem amanhã, vai!", suplica Miranda.

No dia 14 de novembro, às 17h37, Weber diz a Paulo que conseguiu convencer Godoy. Paulo se entusiasma: "Você não sabe como é que me deixa feliz."

Weber emenda: "(Arnaldo) acabou de sair daqui e disse assim: eu mato no mais tardar segunda-feira." Paulo responde: "Excelente. Se ele resolveu bancar... Tá tranquilo". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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