Estilistas da Noruega criam coleção de burqas

Modelos têm cores quentes e estampas; designers querem diminuir preconceito.

Claudia Varejão Wallin, BBC

14 de março de 2008 | 13h05

A tradicional burqa muçulmana acaba de estrear nas passarelas da moda da Noruega, com o lançamento de uma coleção totalmente inspirada na vestimenta que cobre da cabeça aos pés algumas mulheres muçulmanas. A idéia da grife norueguesa Marked Moskva é popularizar a burqa como peça básica - e libertadora - do vestuário feminino."A burqa pode dar mais liberdade às mulheres", disse a estilista Tonje Nordmo em entrevista por telefone à BBC Brasil. "Para as ocidentais, ela dá a oportunidade de poder sair de casa sem se preocupar com o cabelo ou a maquiagem, por exemplo, além de proporcionar privacidade. E se as ocidentais começarem a usar burqas, as muçulmanas podem passar a sofrer menos discriminação", acrescentou ela. Até o momento, segundo a estilista, não houve nenhuma reação negativa por parte de grupos muçulmanos."Temos tido apenas reações positivas", afirmou Tonje Nordmo. "E não estamos com medo, porque nossas intenções são as melhores possíveis."Criação e vendaAs túnicas da coleção, destaca a estilista, foram criadas tanto para mulheres muçulmanas como para não-muçulmanas. A Marked Moskva empregou duas muçulmanas para ajudar a criar a coleção, e três peças já foram vendidas para mulheres islâmicas. Versões estilizadas da burqa já passaram pelas passarelas da London Fashion Week em 2007. Mas a coleção norueguesa é mais fiel ao estilo original, cobrindo totalmente a cabeça e os olhos. A diferença está na variedade de estampas e texturas criadas pela grife.Há por exemplo a "burqa-verão", com estampas florais, e a burqa de peles, adaptada para os vários graus negativos do inverno nórdico. A coleção inclui ainda uma "burqa-doll" para dormir, e até uma burqa para noivas. A idéia de criar a coleção surgiu depois de os três designers da grife - Tonje Nordmo, Maria Kartveit e Cedric Stevens - terem resolvido adotar a burqa como parte de seu guarda-roupa. "Tivemos que mandar trazer as peças do Afeganistão", conta Tonje. Mas usar as tradicionais túnicas negras nas ruas da capital norueguesa, Oslo, foi uma experiência estressante."Ouvimos vários insultos e fomos impedidos de entrar em restaurantes. Outras pessoas pareciam assustadas, com medo da nossa presença. Sentimos na pele a discriminação sofrida pelas muçulmanas", disse a estilista.CoresFoi então que o grupo de designers decidiu criar sua própria versão da burqa, em cores quentes e tecidos variados."Assim, ninguém pode saber se quem está usando a nossa burqa é uma muçulmana ou uma ocidental", observa Tonje.A estilista rebate as críticas de quem vem interpretando a coleção da Marked Moskva como uma piada."Não se trata de piada, de modo algum. Há de fato aspectos positivos na burqa, e nossa mensagem é esta: experimente, você vai gostar. É também uma maneira de as pessoas serem julgadas pelo que realmente são, e não pela sua aparência", diz Tonje Nordmo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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