''Estou convencido de que o regime cairá''

Professor de uma universidade americana, ele diz que o Irã passa por um novo momento revolucionário

Eric Follath, DER SPIEGEL, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2009 | 00h00

Entrevista

Mohsen Kadivar: aiatolá iraniano

Quem é:

Mohsen Kadivar

Aiatolá iraniano, ex-aluno de Hossein Ali Montazeri, principal clérigo dissidente do país, que morreu no dia 20

Professor da Universidade Duke, da Carolina do Norte, nos EUA

Em entrevista à Der Spiegel, o aiatolá iraniano Mohsen Kadivar, professor da Universidade Duke, nos EUA, falou sobre a morte recente do líder da oposição, Hossein Ali Montazeri, o mais importante clérigo dissidente do Irã. Segundo Kadivar, que foi aluno de Montazeri, o fato pode fortalecer o movimento opositor. O professor fez ainda comentários sobre a frustração dos iranianos com o governo do país, o futuro dos protestos e a perspectiva da intensificação dos conflitos.

O que Hossein Ali Montazeri significava para o sr. e qual o papel dele para o povo iraniano?

Montazeri foi meu professor, meu guia espiritual, meu pai, a pessoa mais importante da minha vida. Quando jovem, fui aluno de Montazeri quando ele era vice-líder revolucionário. Eu o admirava por lutar ao lado de Khomeini, mas admirava também suas críticas sinceras a ele. Chorei quando Khomeini o repudiou. Para o Irã, o aiatolá Montazeri foi um verdadeiro guia. No fim de sua vida, foi um líder espiritual para os verdes (dissidentes).

Autoridades impediram que a mídia cobrisse a cerimônia fúnebre de Montazeri. Falou-se em provocações e distúrbios. O que de fato ocorreu em Qom em seu funeral?

Meus parentes participaram da procissão fúnebre, que incluiu centenas de milhares de pessoas, entre elas um sobrinho de Khomeini. Eles me contaram que os milicianos basij tentaram provocar as pessoas para que cometessem atos de violência. Os participantes do velório, porém, não lhes fizeram esse favor. Foram entoados slogans que nunca antes tinham sido ouvidos em Qom, cidade mais conservadora do Irã: "Morte ao ditador!" e "Nosso líder é nossa vergonha!" Naquele dia, as pessoas estavam especialmente irritadas com o líder supremo, Ali Khamenei.

Por quê?

Em sua mensagem de pesar, Khamenei disse que Montazeri fracassara num momento crucial de sua vida. Todos sabiam que isto era uma referência ao confronto de Montazeri com Khomeini, o fundador da República Islâmica. Na mensagem, Khamenei não empregou a forma singular "eu", mas a forma plural "nós", como se ele fosse a voz de Alá decidindo se Montazeri mereceria o perdão no outro mundo. Isto irritou as pessoas. Afinal,somente Deus pode decidir quem fracassou. E Khamenei não é Deus.

Nos últimos meses, Montazeri conseguiu unir os setores religiosos e seculares da oposição. A morte dele enfraqueceu o movimento dissidente?

Ocorreu exatamente o contrário. O luto fortaleceu a determinação da oposição. A Ashura xiita (feriado religioso), que simboliza a justiça, servirá como incentivo adicional aos protestos. As autoridades não podem proibir a cerimônia, cuja data coincide com o sétimo dia após a morte de Montazeri.

O sr. espera uma intensificação da repressão do governo? Será que o regime ousará prender os políticos opositores Mir Hossein Mousavi e Mahdi Karoubi?

Não podemos excluir esta possibilidade. Ao mesmo tempo, o regime também teme todo o tipo de intensificação dos protestos - e com razão. O próximo passo pode ser a rebelião aberta. Mas as coisas ainda não chegaram a esse ponto. Ainda existe a chance de uma reforma pacífica do Estado.

Mas o sr. não acha que o Irã há muito trilha o caminho de uma ditadura militar de cunho religioso?

É verdade que a teocracia xiita fracassou no seu formato atual, fato que poucos expressaram com tanta clareza quanto o aiatolá Montazeri fez nos últimos meses. Quando ele rompeu com Khomeini, três meses antes da morte do líder supremo, em 1989, ele disse: "Este Estado é muito diferente daquele que trabalhamos para criar e com o qual sonhamos". Ainda assim, tenho certeza de que não foi o Islã que fracassou, mas uma interpretação particular do Islã. Quero também afirmar que ainda não houve uma revolução no Irã. A oposição está se tornando cada vez mais clara na formulação de seus objetivos e cada vez mais ousada. Mesmo assim, temos de conservar a paciência. Não sei exatamente quando, mas estou convencido de que o regime cairá.

Será que o Ocidente pode fazer algo para apoiar um processo democrático de reforma?

A adoção de sanções mais rigorosas não é o rumo certo. Elas afetam as pessoas mais do que ao governo. Um ataque militar é algo que rejeito categoricamente. Talvez os países ocidentais devessem parar de tratar o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad como o governo legítimo do Irã. Excluída essa possibilidade, acho que as reformas precisam avançar a partir de um movimento doméstico, a partir dos próprios iranianos.

O sr. ainda conserva uma imagem de Khomeini na parede do seu apartamento no Irã?

Já faz tempo que tirei da parede o retrato de Khomeini. E devo dizer que não o substituí por um retrato de Montazeri, meu mestre. Eu o substituí por um verso do Alcorão: "Deus é maior do que tudo."

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