Reuters
Reuters

Estudantes e policiais se enfrentam em Honduras

Os universitários fecharam as ruas no entorno do campus pelo retorno do presidente deposto, Manuel Zelaya

Reuters, AP e Efe

05 Agosto 2009 | 17h56

Estudantes e policiais entraram em confronto nesta quarta-feira, 4, em uma universidade de Tegucigalpa, após uma manifestação pelo retorno do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya.

 

Veja também:

linkCorrea não quer reconhecer eleições sob governos não eleitos

link Zelaya busca apoio do México; governo interino resiste

link Aumenta repressão na mídia em Honduras, diz ativista

lista Perfil: Zelaya fez governo à esquerda em Honduras

especialEntenda a origem da crise política em Honduras

especialPara analistas, pressão econômica seria a saída

 

Os universitários fecharam, ao meio dia (15h em Brasília), as ruas no entorno do campus da Universidade Nacional Autônoma de Honduras como sinal de protesto. Com o início da repressão policial para liberar as vias, eles se refugiaram na universidade.

 

Os estudantes exigiam o retorno imediato de Zelaya, deposto em um golpe de Estado em 28 de junho. Funcionários da universidade que tentaram negociar com os policiais foram agredidas com cacetetes, incluindo a reitora, Julieta Castellanos.

 

"Isso é condenável, é um ato de barbárie inaceitável e que viola a autonomia universitária. Não podemos permitir que reprimam os universitários dessa forma", afirmou a reitora, atingida por gás lacrimogêneo.

 

"Fui jogada no chão e caí sobre um dos companheiros. Não podemos deixar os estudantes indefesos ante o atropelo à universidade. Vamos denunciar a polícia por esses atos violentos, eles não têm atribuições para entrar no campus".

 

A polícia também usou jatos d'água para dispersar os manifestantes, que revidavam com pedradas.

 

Paralelamente, em diversos pontos de Honduras, foram organizadas passeatas de simpatizantes de Zelaya que chegarão na próxima terça-feira a Tegucigalpa e San Pedro Sula.

 

Apoio

 

Um candidato líder para as eleições presidenciais em Honduras distanciou-se nesta quarta-feira, 4, do golpe que derrubou o presidente José Manuel Zelaya e disse que enviar o mandatário deposto ao exílio foi um erro.

 

Os comentários de Elvin Santos revelaram rachaduras na estrutura de poder hondurenha que passou a governar o país após o golpe de 28 de junho. Até agora, o governo de facto rejeitou todos os pedidos internacionais para que Zelaya seja restaurado ao poder.

 

"Eu irei a todos os cantos de Honduras para explicar que eu não tomei parte nos eventos de 28 de junho" disse Santos a um programa televisivo no canal 5 de Honduras. "O erro garrafal foi tê-lo expulso do país", disse Santos, acrescentando que Zelaya ficou "indefeso" após o golpe. Mesmo os generais que derrubaram Zelaya em 28 de junho, com a sanção do judiciário e do Congresso, estão indo à televisão hondurenha para defender o golpe, o que sugere que temem ser o "bode expiatório" se Zelaya regressar com apoio internacional.

 

Na noite da terça-feira, o comandante do Exército de Honduras, general Miguel Angel García, afirmou que a expulsão do presidente Zelaya interrompeu um plano expansionista "disfarçado de democracia" da Venezuela.

 

"Honduras, a sociedade hondurenha e suas Forças Armadas pararam esse plano expansionista de um líder sul-americano de levar ao coração dos Estados Unidos um socialismo disfarçado de democracia", avaliou García, sem mencionar diretamente o presidente venezuelano Hugo Chávez. "Assim, em Honduras, se freou o socialismo disfarçado de democracia", afirmou ele, em entrevista ao Canal 5 local.

 

"Honduras disse não a esse plano, simplesmente porque na experiência de quase 30 anos durante a Guerra Fria se experimentou a situação crítica da subversão que viveu a América Central", acrescentou García.

 

Entre 1979 e 1990, Honduras se converteu no centro de operações de Washington para o combate às guerrilhas da esquerda na Guatemala, em El Salvador e na Nicarágua, nos quais houve guerras civis que deixaram quase 200 mil mortos em 11 anos.

 

Na entrevista à televisão, compareceram os generais Romeo Vásquez, chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, e seu vice, Venancio Cervantes. Estavam também os generais Luis Javier Prince, chefe da Aeronáutica, e o contra-almirante Juan Pablo Rodríguez, comandante da Marinha.

 

"O povo é o soberano que determinará o tipo de ideologia que escolha", afirmou Vásquez. Este garantiu que a "mente flexível dos militares" é capaz de trabalhar com um presidente de esquerda, caso algum deles vença as eleições nacionais.

 

"Os militares respeitamos qualquer solução que se obtenha sob a mediação do presidente (da Costa Rica, Oscar) Arias...e acataremos sem problemas qualquer resolução a que se chegue em San José", ressaltou Vásquez. Arias tem atuado como mediador entre Zelaya e o governo interino liderado por Roberto Micheletti, por enquanto sem sucesso.

 

Cervantes disse que os militares depuseram Zelaya "de acordo com a missão que nos deram os tribunais, com um profissionalismo muito grande". Já Rodríguez ressaltou que as Forças Armadas fizeram "prevalecer a defesa e a sobrevivência do Estado, que era ameaçado".

 

Mediação

 

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, criticou na Cidade do México o trabalho de mediação do governante da Costa Rica, Óscar Arias, ao acusá-lo de ser "muito suave" com os representantes do novo Governo hondurenho, liderado por Roberto Micheletti.

 

"Independente da boa fé de Arias, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz, acho que tratou os golpistas com mãos suaves, e já chegou o momento de começar a apertar", afirmou Zelaya.

 

O líder deposto fez tal afirmação durante um evento em sua defesa promovido em um teatro da Cidade do México por uma série de organizações sociais mexicanas.

 

Zelaya disse "reconhecer o esforço da comunidade internacional" e explicou que a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, aceitou Arias como mediador "porque queria que os Estados Unidos tivessem um papel protagonista".

 

"Muitos dos atores fundamentais do golpe de Estado em Honduras não surgiram do Governo do presidente americano, Barack Obama, mas sim dos falcões em Washington que o promoveram", acrescentou.

 

O governante deposto assegurou que sua derrubada revelou a "fraqueza da comunidade internacional", mas destacou o fato de que a situação de Honduras foi condenada pelos 192 países-membros da Assembleia Geral das Nações Unidas.

 

Golpe

 

Zelaya foi deposto em um golpe militar em 28 de junho e forçado ao exílio na Costa Rica. Nesse mesmo dia, o presidente do Congresso, Micheletti, assumiu o posto.

 

Horas depois do golpe, Chávez chegou a ameaçar mandar tropas a Honduras para restituir Zelaya. A Organização dos Estados Americanos (OEA) suspendeu Honduras após o golpe.

 

Entre 1956 e 1982, os militares governaram Honduras durante quase 20 anos, após derrubarem três presidentes eleitos democraticamente. Desta vez, após retirarem Zelaya do cargo deixaram o poder na mão dos civis.

 

Entre os dias 17 e 21 deste mês, membros da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) visitarão Honduras para avaliar o cumprimento dos direitos humanos no país depois do golpe de Estado ocorrido em 28 de junho.

 

Em 1977, Honduras ratificou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos e, apesar de o país ter sido suspenso da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 4 de julho por causa do golpe de Estado, deve continuar a cumprir as obrigações contraídas com o organismo por ter assinado esse documento e outros tratados nesta matéria.

Mais conteúdo sobre:
Honduras

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.