Estudantes e policiais voltam a se enfrentar em Caracas

Manifestantes pedem que referendo sobre reforma da Constituição seja adiado.

Claudia Jardim, BBC

01 de novembro de 2007 | 22h15

Estudantes e policiais voltaram a se enfrentar nesta quinta-feira em Caracas, durante uma manifestação convocada pela oposição contrária à reforma da Constituição proposta pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez. A pollícia usou bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos de água para dispersar os milhares de manifestantes. Segundo a imprensa local, uma pessoa ficou ferida. Esta foi a segunda vez em uma semana que estudantes de oposição e policiais entraram em choque durante manifestações. O confronto desta quinta-feira teve início quando um manifestante quebrou um dos vidros do caminhão da polícia que bloqueava o acesso ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - destino final da manifestação - e começou a jogar gasolina dentro do veículo. Policiais que estavam em cima do caminhão dispararam, então, bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes antes de que o carro fosse incendiado. Enquanto um grupo de estudantes tentava "acorrentar-se" aos portões do Conselho Nacional Eleitoral, uma comissão de dirigentes estudantis entregou aos reitores do CNE uma petição na qual exigem que o referendo sobre a reforma constitucional, previsto para 2 de dezembro, seja adiado para fevereiro de 2008. "Defendemos o direito à informação de todos os venezuelanos, por isso exigimos que se adie o referendo. Não conhecemos a reforma", disse Stalin Gonzalez, um dos dirigentes estudantis, pouco antes de ingressar no CNE. O reitor do CNE, German Yepez, disse ter explicado aos estudantes que não é competência do conselho modificar a data do pleito. Por lei, o CNE deve convocar o referendo em um prazo máximo de 30 dias a partir da entrega formal da proposta de reforma. O texto final, que propõe a modificação de 69 artigos da Constituição venezuelana, deverá ser entregue pelos parlamentares nesta sexta-feira.O protesto desta quinta-feira reuniu milhares de estudantes, membros de alguns partidos de oposição e o diretor do canal de TV Globovisión. Os manifestantes percorreram ruas do centro de Caracas com cartazes e bandeiras que diziam "Não à reforma".Alguns manifestantes vestiam camisetas vermelhas - cor usada pelos simpatizantes do governo - com um "Não" estampado no centro. "Queremos que se suspenda a reforma, não queremos comunismo", disse à BBC Brasil Carlos Sanchez, da Universidade Central da Venezuela. Como em episódios anteriores, a reforma tem acentuado a divisão dos partidos de oposição, que até agora não apresentaram uma proposta única para tentar frear a reforma governista. Enquanto os estudantes exigem o adiamento do referendo, um grupo da oposição chamado Comando da Resistência convocou a população a deslegitimar o pleito, por meio da abstenção. O presidente Hugo Chávez, por sua vez, retificou nesta semana sua decisão inicial de que a reforma constitucional deveria ser submetida a aprovação em referendo de maneira unitária. Chávez propôs que a reforma seja votada em blocos.O novo anúncio de Chávez atende a uma das exigências dos partidos políticos da oposição. "Minha proposta original foi fortalecida, com a inclusão de 36 novos artigos, e cheguei à conclusão de que poderia ser votada em blocos, como assinala a Constituição", disse o presidente venezuelano em um ato público em Caracas, nesta quarta-feira.Na prática, segundo analistas, a votação em bloco pode significar que Chávez pretende colocar à prova dois projetos. O primeiro, apresentado por ele, com a modificação de 33 artigos. O outro, com as reformas propostas pelos parlamentares. O ponto mais polêmico da proposta de reforma constitucional é o que permite o fim do limite para reeleição para o cargo de presidente. A Constituição vigente prevê apenas uma reeleição direta com um período de seis anos para cada mandato. A reforma também propõe a redução da jornada de trabalho de oito para seis horas diárias, o fim da autonomia do Banco Central, a inclusão do "poder popular" na escala dos poderes nacional, estatal e local e a proibição do latifúndio. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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