Estudo sobre sistema imunológico dá Nobel de Medicina a três pesquisadores

Ciência. Descoberta possibilitou a criação de medicamentos e imunizantes mais eficazes no combate a infecções, tumores e doenças autoimunes; um dos premiados, o canadense Ralph M. Steinman, morreu na semana passada, antes do anúncio oficial

ALEXANDRE GONÇALVES, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2011 | 03h01

A descoberta de mecanismos cruciais para despertar a resposta do sistema imunológico rendeu ontem o Prêmio Nobel de Medicina a três pesquisadores. O conhecimento premiado possibilitou - e ainda inspira - a criação de medicamentos e vacinas mais eficazes para combater infecções, tumores e doenças autoimunes.

Desde o século 19, os cientistas já conheciam a ação de células capazes de devorar possíveis agentes patológicos - os chamados fagócitos. O russo Ilya Ilyich Mechnikov - Nobel de Medicina em 1908 - já demonstrara a ação de fagócitos em estrelas-do-mar expostas a uma levedura. Mas a forma como o sistema imunológico reconhecia os invasores permanecia um mistério.

Em 1996, o francês, nascido em Luxemburgo, Jules Hoffmann, estudava como moscas drosófilas combatiam infecções. Descobriu que insetos com mutações em um gene conhecido como Toll, até então associado apenas ao desenvolvimento embrionário, não conseguiam identificar e combater microrganismos patogênicos. O gene produzia receptores - substâncias presentes na membrana celular - que reconheciam padrões moleculares associados a potenciais ameaças.

Dois anos depois, o americano Bruce Beutler descobriu que os receptores do tipo Toll (TLR, na sigla em inglês) não eram propriedade exclusiva de drosófilas. Camundongos, humanos e moscas compartilhavam os mesmos sensores bioquímicos para iniciar a guerra contra bactérias, fungos e vírus.

Hoffmann e Beutler mereceram metade do prêmio oferecido pela Fundação Nobel. Cada um receberá 2,5 milhões de coroas suecas - cerca de R$ 670 mil. A outra metade - cerca de R$ 1,3 milhão - coube ao canadense Ralph Steinman, que morreu na semana passada.

Hoffmann e Beutler desvendaram os mistérios da chamada resposta inata do sistema imunológico - que independe do agente infeccioso. Já Steinman revelou o papel das células dendríticas, responsáveis por despertar a segunda fase da luta contra os microrganismos (a resposta adaptativa), que desenvolve armas específicas - como os anticorpos - contra cada agente infeccioso. Ele realizou sua pesquisa na década de 70.

A resposta inata está presente em todos os organismos pluricelulares e a adaptativa, só nos vertebrados.

Aplicação. Maurício Martins Rodrigues, que pesquisa vacinas contra malária e doença de Chagas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), recorda a promissora vacina para malária testada recentemente na África que protegeu quase metade das crianças imunizadas, um recorde nos testes de larga escala.

"Utilizaram um adjuvante desenvolvido com base nos conhecimentos obtidos pelos ganhadores do Nobel", explica Rodrigues, lembrando que as descobertas também serviram para entender melhor situações em que o sistema de defesa se volta contra o próprio organismo, provocando doenças autoimunes.

"Estou muito contente por receber este prêmio, sobretudo em companhia dos meus colegas Steinman e Hoffmann", disse Beutler, ao saber da premiação. "Isto mostra como nosso trabalho foi valioso e importante. Espero continuar realizando pesquisas na área."

Hoffman recordou o pai, que passou sua vida estudando insetos e inculcou a mesma curiosidade no filho. / COM AFP

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