Eu já não aguento mais

São mais de 30 anos que frequento estádios como jornalista e já batuquei milhares de comentários de jogos. Vi centenas de finais, duelos marcantes e reviravoltas históricas. Estou com o couro mais do que curtido no controle da emoção. Mas não é que, neste domingo ora nublado, ora ensolarado me flagro a vibrar como garoto que acaba de descobrir o prazer do futebol? Como milhões de brasileiros, acompanhei com o coração na mão a penúltima rodada.

Antero Greco, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

Impressionante a sucessão de alternância de posições nos quatro primeiros lugares. Nenhum dos postulantes ao título saiu de campo na mesma colocação em que se encontrava antes de a bola rolar. O que só comprova o equilíbrio do torneio mais inusitado que acompanhamos por aqui em décadas. Se há restrições quanto ao nível técnico da competição - e falar disso soa até desrespeitoso neste momento -, não há o que questionar no quesito empolgação.

Só para seguir os jogos disputados simultaneamente, ontem à tarde, houve demanda de adrenalina acima da conta. E dá-lhe controle remoto na mão, mudando de canal a toda hora. Estou com dor de cabeça!

Que só não é maior do que as dores do torcedor do São Paulo - de cabeça e de cotovelo. O hexacampeão cumpriu papel de reação quase impecável e falhou na hora em que mais necessitava de equilíbrio. Os 4 a 2 em Goiânia podem ter-lhe custado o título - e custaram mesmo.

Foi inócua a postura altiva diante de um rival motivadíssimo. O ex-líder, agora 4.º colocado, confiou na experiência de seus jogadores e na valentia de Washington, dominou parte do primeiro tempo, abriu vantagem e ruiu a partir do golaço de empate de Vítor. Os tricolores amedrontaram-se com o fantasma da derrota e foram paralisados por ele. Veio a virada goiana, veio o terceiro gol, bateu o desânimo. Pouco adiantou o segundo gol de Washington, pois no minuto seguinte Leo Lima fechou a conta. O São Paulo volta para casa desconsolado, com a sensação de que o hepta já era.

Inabalável é a certeza do Flamengo de que acabará com jejum que perdura desde 1992. Nem a ausência de Adriano levou apreensão ao time que o técnico Andrade tão bem soube reerguer. Pelo que se viu, no Brinco de Ouro, o Fla podia entrar com uns três a menos que não faria diferença. Primeiro, porque teve conduta de quem se sente capaz de alcançar o alto do pódio. Além disso, encarou adversário apático, modorrento, desinteressado. O campeão paulista foi um fim de feira só - e perdeu o pouco de brilho com a contusão de Ronaldo. O Fla não precisa contar para ninguém, mas pode encomendar o chope para a festa preparada para depois do clássico com o Grêmio.

O Palmeiras renasceu, com os 3 a 1 sobre o Atlético-MG, chegou a sonhar com a liderança que esteve em seus pés em metade do campeonato, mas teve de conformar-se de subir do 4.º lugar para o 3º. A torcida saiu do Palestra Itália convencida de que bastava um tiquinho de eficiência, em tropeços contra Santo André, Avaí, Náutico, Sport, que a esta altura estaria festejando o penta. O Inter continua a correr por fora, é o vice-líder, mas tem pouca esperança de que poderá contar com ajuda decisiva do arquirrival Grêmio. Você não acredita? Nem eu.

A rodada teve o que se espera de final eletrizante. Estou com o coração disparado até agora. Não aguento mais! Se não tivesse de escrever, teria ido ao cinema. Não, não ia adiantar, porque ficaria com o ouvido colado no radinho de pilha.

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