'Eu não sou perfeitinho'

Mas, ao contrário de antenor, ator garante que conta até 10 antes de perder a cabeça

Keila Jimenez, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 05h45

Foi apenas um telefonema até que ele retornasse. Na primeira e única ligação, uma voz simpática explicou que "Seu Tony" não estava porque tinha de gravar umas "externas" (cenas fora do estúdio) com "Daniel Bastos"(personagem de Fábio Assunção em Paraíso do Tropical). Bastou a funcionária bem informada e antenada na novela dar o recado, para, dias depois, Tony Ramos ligar agendando a entrevista. Deixou claro que não tinha secretária, muito menos assessor para cuidar "dessas coisas." O ator passa longe dos egos inflados do meio em que trabalha, e mais ainda da soberba de seu atual personagem, o empresário Antenor Cavalcanti, da novela Paraíso Tropical. "Mas não sou santo", afirma, em papo com o Estado, renegando a fama de "bom moço" que lhe atribuem. Na conversa, Tony Ramos fala sobre o personagem, convites para trabalhar no exterior e classificação indicativa (o ator foi até Brasília dizer que é contra a atual). Garante ainda que a audiência não o rejeita na pele de vilão e diz saber palavrões que o público nem imagina. Você acha o Antenor um vilão? O que é o grande vilão? Na indústria do entretenimento é comum as pessoas acharem que o vilão é aquele de capa e espada, patológico. Esse vilão o Antenor não é. Como o Zé Clementino, que fiz em Torre de Babel, não era um vilão. Ele cometia um ato de vilania. A dramaturgia é a única forma de poder ?brincar? com essas vilanias para tentar atingir um objetivo. É assim que vejo meus personagens. Você defende as atitudes do Antenor? O que eu defendo é a lógica do personagem. O Antenor tem lógica em suas contradições. Ele é machista, grosso com as pessoas, traiu a mulher... Mas o Antenor é fruto de um grande desamor, de uma grande desatenção do pai. Ele tem alguma coisa a ver com você? Só minha cara (risos) Você citou Torre de Babel... Ficou bem resolvida essa história de o público não te aceitar bem como vilão? Isso não é verdade. Eu tive as pesquisas em mãos... Em nenhum momento disseram: ?Não queremos o Tony fazendo o Zé Clementino?, é só pegar a sinopse de Torre, registrada na Biblioteca Nacional. Estava previsto lá que o personagem mudaria assim que se apaixonasse. Mas a audiência de Torre teve um reflexo ruim quando você começou como um vilão... Não. É como agora. No começo, todo mundo estava preocupado com Paraíso Tropical... Será que vai dar certo? Mas depois engrenou. O Antenor teve um enfarte. É difícil simular um sem parecer canastrão? É complicado, mas gravei uma única vez. Apenas ensaiei com os câmeras onde eu iria cair. Também perguntei ao meu filho, que é cirurgião cardiovascular, sobre onde é a dor do enfarte. Ele me disse que as dores se manifestam das mais variadas maneiras. Tem gente que sente só um dorzinha, tem gente que vai perdendo o ar. Achei que essa última era a mais teatral e não corria o risco de ficar piegas. Mas, o importante para mim era o pós-operatório. Era o Antenor frente à morte. Ele começar a mudar... Ele vai morrer? Ah, isso é com o Gilberto Braga. Só sei o que vai acontecer na próxima semana (risos). Então o Antenor vai ficar bonzinho como você? (Risos) Não , ele não ficará bonzinho. Mas ficará coerente com seu novo momento ao lado da personagem da Glória Pires: fiel, querendo ser pai. Pelo menos por enquanto. Você nunca atravessou fora da faixa, xingou alguém no trânsito, chutou cachorro... Não faz nada politicamente incorreto? (risos) Claro que faço. Conheço uma listas de palavrões, quer que eu repita? Eu apenas, publicamente, não acho que seja pertinente ficar falando palavrões. É obvio que eu já atravessei fora da faixa. Agora, não é do meu feitio você me ver gesticulando obscenamente no trânsito porque me cortaram... Imagine alguém me ver fazendo isso? (risos)Eu fico puto, mas dentro das minhas janelas (risos). Mas você não passa por chato sendo tão correto? É , parece coisa de chato de galocha, mas é coisa minha. Não sou diferente de toda a humanidade. E não suporto essa história de não poder fazer piada com isso, porque não é correto, com aquilo, porque é preconceito. As pessoas estão perdendo o humor e adotando uma linha de mentiroso ético. É só o humor que resgata o ridículo da raça humana. Eu não sou perfeitinho. Experimente me encher o saco que vou te mandar para aquele lugar... É claro que, antes disso, contarei até 10.

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