Eu só queria jantar - A mesa farta da Dona Victoria

Eu só queria jantar - A mesa farta da Dona Victoria

Dona Victória, de certa forma, foi a mamma dos “brimos” paulistanos. Fundadora do restaurante que leva seu nome, a libanesa Victória Feres (falecida em 1991, aos 97 anos) teve papel central na difusão de uma modalidade gastronômica que acabou virando uma das mais populares da cidade.

Luiz Américo Camargo - O Estado de S.Paulo,

07 Março 2012 | 19h51

A Brasserie Victória, que completa 65 anos, nasceu na Rua 25 de Março, onde ficou até 1982. Foi então para o Itaim Bibi, onde faz sucesso entre a colônia árabe (e não só ela) até hoje. O restaurante continua familiar, conduzido pelos herdeiros da matriarca (sua filha, seu genro e os cinco netos). E, ainda que trabalhando com escalas quase industriais, preserva algo de caseiro em sua cozinha. Replicar o artesanal mantendo o padrão, convenhamos, é uma habilidade.

No cotejo com outros árabes e afins, a Brasserie talvez pareça algo fora do tempo. Pois em lugares como a Tenda do Nilo e a Casa Líbano, nos sentimos mais perto do Oriente Médio. Na Casa Garabed, a esfiha é superior. Já o Saj e o Manish evocam ares, digamos, mais modernos. Mas, comparações à parte, o legado de Dona Victória parece consolidado. E, seja para um lanche nas mesas perto do empório, ou para um almoço no salão, onde o forte continua sendo o rodízio, várias de suas sugestões continuam valendo a visita.

Como o quibe cru, de textura sedosa; a esfiha de carne com massa folhada, crocante, bem assada; a katfa, exemplarmente churrasqueada; e o ataif de nata, sempre leve.

O que se chama de rodízio na Brasserie, entretanto, não se assemelha à blitzkrieg de espetos e carrinhos das churrascarias. Ou à revoada incontrolável de redondas de mussarela e calabresa de uma pizzaria. É simplesmente uma sequência de pratos, dos frios aos quentes, um pot-pourri que se desenvolve numa sequência lógica. Começando por uma salada simples, farta e fresca; prosseguindo pelas pastas frias (coalhada, homus) e por quibe cru; enveredando por esfihas e quibes, depois kafta, arroz com carneiro, charuto de uva e outros mais. Um menu degustação sem discursos nem atropelos, mas com direito a repeteco, conforme a fome do cliente.

No fim de um almoção de domingo, com a casa cheia, o garçom parece inconformado em me ver colocando o guardanapo sobre a mesa, num gesto de rendição. “Não quer repetir mais nada? Pode pedir que eu arrumo para o senhor.” Uma hospitalidade que difere de uma vertente contemporânea que transforma brigada de serviço em, vá lá, cicerone de uma experiência. Ao estilo do que se fazia na época da 25 de Março, presumo, ele só quer saber se você comeu bem. É ótimo que isso ainda exista - e que, no ato de ir a um restaurante, tantos mundos e tempos paralelos coexistam.

Por que este restaurante? É um clássico da cidade.

Vale? O rodízio, de R$ 72, compensa para os mais comilões. À la carte, compartilhando, fica abaixo dos R$ 50. Vale.

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