Daniel Teixeira/AE
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Eu só queria jantar - Sem medo de acertar

Na dúvida, fui consultar os arquivos desta coluna. Vi que é a segunda vez que publico um segundo texto sobre um mesmo restaurante. Aconteceu antes com o Pomodori, em 2009 e 2011. Hoje, é com o Clos de Tapas, sobre o qual escrevi há quase exatamente um ano. Pura falta de originalidade ou de assunto? Não, apenas uma mudança que considero importante.

Luiz Américo Camargo,

01 de fevereiro de 2012 | 16h57

Naquele janeiro de 2011, tratei da abertura do restaurante. Um endereço promissor. Só que faltava emoção, apetite, e havia um predomínio da estética sobre o sabor; do acessório sobre o essencial; do discurso sobre a espontaneidade. Uma sensação que perdurou em visitas posteriores, mas se dissipou em refeições recentes, há poucos dias. Comi bem, em suma.

A brasileira Lígia Karazawa e o espanhol Raul Jiménez seguem executando a mesma cartilha: servem cozinha de vanguarda de inspiração espanhola a partir de produtos brasileiros, em pequenas porções, pensando mais no contexto de um menu do que numa estrutura entrada/prato. Contudo, a diferença é que o receio de errar deu lugar à liberdade de acertar. Eu sei que esta última frase pode até parecer conversa daqueles cursos motivacionais. Mas a síntese é que o prazer gastronômico, enfim, parece estar em primeiro plano.

O almoço executivo do Clos de Tapas (R$ 42, durante a semana), por exemplo, tornou-se uma das boas opções da cidade em sua categoria. O menu inclui couvert e uma sequência de pratos leves, saborosos, que mudam sempre. Coisas como creme frio de cenoura, salada de cevadinha e camarões, arroz de galinha caipira. Outro aspecto importante. Logo que me acomodei e escolhi, ouvi a seguinte pergunta do garçom: "O senhor está com pressa ou quer fazer uma refeição mais lenta? Qual a velocidade?" Escolhi o ritmo normal, digamos, e correu tudo bem. Isso é serviço.

À noite, segue o esquema já conhecido: os pratos podem ser pedidos unitariamente, ou em menus (R$ 136, o de seis tempos; R$ 185, o de nove). E foi no menu-degustação que me deparei com sugestões interessantes como a caixa de legumes, a ostra empanada e o "bloody steak", contrafilé servido com "sangue" de beterraba (uma ideia que me remeteu a um prato do japonês Yoshihiro Narisawa, feito com cervo). Assim como vi algumas incongruências. A arraia, por exemplo, apetitosa e precisa na cocção, é servida com purê de maçã e uma "rosa" de beterraba - que, ao chegar à mesa, ganha uma nova borrifada de aroma de rosas. Por que atrapalhar o peixe? Já na sobremesa "coco", feita com leite de coco congelado e pó de cacau, a presença do curry parece excessiva. Mera idiossincrasia do crítico? Eu diria que é só uma ligeira reflexão sobre o equilíbrio.

Falando de novo do serviço, é ótimo constatar que o restaurante não adota mais aquele tom de porta-voz de um estilo de comer civilizador, explicando até a fórmula da água. Para alguém que só queria jantar, como eu, é um alento ver os pratos - e o que precisa ser informado a respeito deles - sendo apresentados com muito mais fluidez. Bom para a casa, bom para os clientes.

Por que este restaurante?

Porque, a meu ver, ele passou por uma grande evolução.

Vale?

O cardápio do almoço, por R$ 42, vale muito a pena. À noite, a conta fica bem mais alta. O menu de seis tempos, por exemplo, pode ser a melhor escolha. 

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