Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Eu, urutau

E a história do guajajara que ficou quase 27 horas na árvore

Juliana Sayuri,

21 Dezembro 2013 | 16h01

RIO - Cá do alto vi a cidade dormir mais uma vez. Gosto da noite, da brisa sul-americana, das estrelas e da lua cheia brilhando no céu. Diz minha lenda que, como bom urutau solitário sob o luar, trino uma melodia similar a uma lamentação humana, bela e triste. Mas, nessa segunda-feira fresca de lua cheia no Rio de Janeiro, o lamento era outro. Era outro urutau: José Wilhame Pinto Araújo, vulgo José Urutau Guajajara, vulgo Zé. Cá no alto estava ele, no último galho de uma árvore fincada no quintal da Aldeia Maracanã, no antigo Museu do Índio.

Pássaro fantasma, dizem-me. Passo discreto por essas selvas urbanas, tão discreto que são raríssimos os caras-pálidas que já me notaram. Zé, não. Zé marca território, mostra o rosto, não arreda o pé. Foi assim nesses dias, durante uma tal reintegração de posse do antigo Museu do Índio, idealizado por Darcy Ribeiro num casarão no Maracanã na década de 1950. Era ainda manhãzinha quando uns 150 policiais militares da Tropa de Choque arrombaram as portas, revistaram o pessoal a torto e a direito, trotaram pelas escadas de madeira e zarparam com manifestantes, uns 50 no momento, uns 25 presos. Zé não foi.

Passava das 10 horas da manhã. Zé viu a balbúrdia, sentiu que já não sobraria lugar para se abrigar na construção, subiu no telhado e na escadaria, driblou os fardados em tempo de escalar uma árvore de 5 metros de altura. A princípio, queria se esconder. Ao ver que outros indígenas no telhado foram algemados, queria resistir. Aí não teve jeito: como tirar o homem de lá?

José Urutau Guajajara é um pouco como eu. Um bicho perspicaz, dizem-me, esperto a ponto de me camuflar para me proteger dos perigos, principalmente entre troncos e galhos de árvores. Zé ficou ali escondido como eu ficaria, para escapar dos predadores. Mas foi logo descoberto, e aí já é história de bicho-homem.

As horas de segunda-feira passaram. "O sr. precisa descer. Vamos conversar", disse um coronel. Mas Zé não ia ceder, estava lá desde 2006, oras, na primeira ocupação da Aldeia Maracanã. "Se o sr. descer, voltará à Aldeia Maracanã, sem erro, prometo." Mas Zé não é bobo, estava esperando o papel assinado por um juiz, dizendo que a tal reintegração era ilegal.

Sete da noite e nada desse papel. Zé, sem camisa e sem nada na barriga desde domingo à noite, só pescou uma garrafinha d’água. Nove da noite e nada. Zé, vestindo apenas bermuda de losangos azuis e colar branco, continuava firme. E o fuzuê sob seus pés: imprensa, bombeiros, Bope e uma tribo de manifestantes solidários. Uns ralharam, "porra, índio, vamos descer, tua mulher e teus filhos tão te esperando". Outros sussurraram nos bastidores, "poxa, índio, o show já foi, desce logo pra terminar essa história". Mas os manifestantes apoiaram, "fica, Zé". E Zé ficou. Mais de 11 da noite no relógio e nada.

A essa altura, Zé já tinha experimentado as folhas da árvore majestosa, para garantir que não eram tóxicas e tal. Comeu. Na garrafinha, já tinha feito xixi e, desidratado que estava, sabia que logo precisaria desse líquido amarelo não muito nobre. Bebeu.

Veio o terror noturno. "Amigo, se você não descer, vamos derrubar a árvore." Foi um pulo daí para o ultimato de disparos de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, além do revólver de choque elétrico. Era blefe. E Zé não se intimidou. Tinha amarrado uma corda no corpo, para não cair caso caísse no sono. Enquanto os policiais faziam vigília, os bombeiros ficaram deitados num colchão improvisado para impedir a fatalidade d’um índio urbano quebrar o pescoço ao cair da árvore. Veio a pressão psicológica, com provocações, luzes altas miradas no rosto do homem e chistes infames sobre os indígenas. Aí Zé não só não se intimidou como entornou a garrafinha, generosamente cheia de urina, nos bombeiros e nos policiais que o esperavam e espezinhavam sob a árvore. Eu, urutau perdido nessa cidade "maravilhosa", ri. Silêncio, enfim.

As horas de terça-feira passaram. Zé, ressabiado com os fardados, não quis conversa. Voltaram os manifestantes, os jornalistas e os fotógrafos, e aí já corria a notícia: "Nesta terça, dia 17 de dezembro, o índio José Urutau Guajajara amanheceu em cima de uma árvore, nas proximidades da Aldeia Maracanã, zona norte do Rio, em protesto contra a ação de reintegração de posse realizada pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar". Por volta das 11 da manhã, vi de longe, fizeram o índio descer na marra. Um bombeiro encostou uma escada simples na árvore, outro usou uma escada magirus, outro tentou içá-lo pelo telhado do prédio. No alto, um bombeiro conseguiu se aproximar e amarrou uma corda no corpo de Zé, sem notar a outra corda, amarrada à árvore. Puxou, o índio não foi, puxou mais, o índio quase foi, puxou mais uma vez, a corda subiu e, sem querer, estava quase enforcando Zé, que saiu com escoriações nos braços e marcas no pescoço.

Após quase 27 horas, Zé pôs os pés no chão. Era tanta algazarra que uns policiais sacaram sprays de pimenta para afastar os manifestantes, uns 20. De lá, direto para a ambulância, rumo ao Hospital Souza Aguiar. Zé passou, mas não foi atendido, apesar de pedir para fazer o tal exame de corpo de delito para registrar os ferimentos. De lá, direto para o camburão, rumo ao 18º DP, na Praça da Bandeira. O índio responde agora a processos por resistência, desobediência e desacato.

José Urutau Guajajara, um passarinho me disse, é uma das principais e mais antigas lideranças do movimento indígena na Aldeia Maracanã. Aos 54 anos, Zé tem pele morena, marcas expressivas ao redor dos olhos negros e levemente puxados, fios grisalhos e longos, barba feita. Tem voz rápida, mas branda. É da tribo guajajara, guerreira, muito presente no Maranhão. Ali, Zé nasceu na aldeia Lagoa Comprida num 22 de outubro, o sexto de dez irmãos. Aos 14, começou a estudar em Barra do Corda, cidadezinha vizinha, época em que aprendeu o português - antes só versava o tenetehara, da família do tupi-guarani. Aos 20, decidiu se aventurar no Rio, para trabalhar e ajudar a família maranhense. Mais tarde, na década de 1990, decidiu estudar mais, queria se expressar melhor e descobrir um jeito de preservar sua língua nativa. Foi dito e feito: fez-se educador, com pós na UFF e na UFRJ, atualmente faz mestrado em linguística na UERJ. "Ei, você é índio!", gritou e riu um menino loirinho, 4 anos talvez, que passava pelo Flamengo. "Sim, e de verdade", Zé respondeu, tranquilamente.

Zé passa uma temporada na aldeia, outra na cidade. No Rio, mora no pé do Morro do Alemão, passa a Avenida Brasil, a Martin Luther King, a estação Tomás Coelho e lá está o galpão com porta de ferro vermelho. É uma casa simples, tijolo à vista e cimento bruto, com quintal cheio de quinquilharias, entre micro-ondas e radinhos velhos, varal colorido, mais de dez gatos, três bicicletas e dois espelhos. Vive com Potyra Krikati, três filhos e uns sobrinhos. Artesã, vestido de oncinha, pinturas de jenipapo nos braços e balangandãs, Potyra se mudou para o Rio aos 18, também para trabalhar e ajudar a mãe maranhense, viúva com dez filhos. Ficou na Rocinha e depois no Alemão. Nunca tinha visto tanta casa uma em cima da outra. Tampouco tinha visto hostilidade assim: "Ô, índia, que você tá fazendo no Rio, vá voltar pro Amazonas!". Mas Potyra nem pisca: "Sou do Maranhão, vá estudar nossa cultura antes de dizer besteira". Após muitos anos juntos, Zé e Potyra decidiram se casar na Aldeia. Espiei, uma festa de três dias com dois pajés (um da tribo guajajara, um da krikati). Ali eles ensinam estudantes a escrever nas línguas nativas, fazer grafismos e assar peixe na folha de bananeira, além de oficinas de artesanato e de agricultura.

Desde 2006 no antigo Museu do Índio, a Aldeia Maracanã reuniu umas 17 etnias. A ideia era transformar a construção art nouveau numa aldeia urbana símbolo. Pousava lá às vezes, nos lados do casarão, esquecido desde 1977, com grafites coloridos e janelas quebradas, onde os indígenas geminaram casas de alvenaria, já derrubadas. Diz Michael Oliveira, o Baré, que esse é um lugar de memória para os índios no Rio: foi cedido por um tal príncipe Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, o duque de Saxe, para o Império do Brasil, em 1865. Da história nova, o casarão ainda abrigou o SPI, idealizado pelo marechal Rondon, em 1910. Baré, historiador arauaque, foi a Brasília para encontrar a ministra Maria do Rosário dias desses para conversar sobre o projeto da Universidade Intercultural Indígena Aldeia Maracanã. "‘Tá de parabéns. A educação é o único caminho para a emancipação dos povos.’ Foi o que a ministra me disse, mirando meus olhos com aqueles olhões azuis dela."

A Aldeia, "embaixada" indígena vizinha ao Estádio do Maracanã, entrou na mira imobiliária a partir de 2012. Cidade anfitriã de Copa e de Olimpíada, já viu... Tornou-se templo antigo para o culto de ambições modernas. Os caras-pálidas não gostaram dessa ideia de universidade de índio, não. Tiveram outra: por que não demolir o velho museu que tá atrapalhando o caminho? Assim, no dia 22 de março, os indígenas foram não mui gentilmente retirados da Aldeia, numa ação militar quase ritualística - bala de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta. No dia 5 de agosto, os indígenas voltaram à Aldeia e, sete dias depois, o casarão foi tombado.

Mas outro passarinho me contou que o movimento rachou em três lados. Um, indígenas que saíram do Maraca e se refugiaram na colônia Curupaiti, dialogaram com o Estado, pensando em revitalizar o casarão para construir um centro cultural - "Os outros se uniram com punks, tá loco? Tem militante aí do PSOL e PSTU, sei não. Tem infiltrado de diferentes ideologias, contra tudo e contra todos. Melhor seria se fosse um movimento ‘puramente’ indígena." Dois, indígenas que se recusaram a negociar com o Estado, brigando para construir a Universidade Indígena Aldeia Maracanã, recusando um centro cultural "folclorizado" - "Os outros são uns curupaitianos traidores. Nosso terreno é de 14 mil m², não os 1,5 mil m² que Sérgio Cabral nos deu como esmola. A gente não quer mais espelho. Se movimentos urbanos e políticos quiseram se unir, bem-vindos. Às vezes esses jovens são mais índios que muito índio." Três, indígenas que não se encontram nem cá nem lá - "Os outros estão agindo por interesses particulares. Uns fugiram para Curupaiti, uns dissidentes. Outros ficaram no Maracanã, mas por motivos políticos, quase mafiosos." Mas nessa colmeia de contradições e conflitos interétnicos, inevitáveis num universo de 270 línguas, 300 etnias e 817 mil cabeças, prefiro nem meter o bico.

Noves fora, muitos índios encontram simpatizantes entre diversos tipos urbanos. O jovem líder Ash Ashaninka se relaciona bem com a galera universitária, entre estudante punk, gótica magrela, nerd grunge, ninja com relógio dourado, muitas tattoos, urucum e jenipapo, moicanos, brincos e alargadores, Hollywood e Marlboro, cigarrinho da paz e rapé. "A publicidade agora é a alma do indígena. A gente precisa mostrar o rosto e dizer o que pensa para defender nossos direitos."

Pois volto a piar sobre domingo passado. Enquanto uns 300 amigos da FIP se reuniam, os indígenas presentes decidiram reocupar a Aldeia Maracanã, pois viram escombros demolidos doutras construções ao lado do casarão. Bope entrou, Zé subiu na árvore. Virou herói para uns, vilão para outros. No dia seguinte, indígenas e ativistas se movimentavam de um lado para outro no Rio, caçando o encontro de lideranças indígenas que discutiria o destino da Aldeia Maracanã - e Zé e seus companheiros não foram convidados. Passaram por câmpus, metrô, praça. Depois da orla do Flamengo, pararam no hotel Novo Mundo. Zé surgiu. Ao seu lado, o irmão Arão Araújo, advogado, terno e camisa estilo Tommy, um tanto puto. "Se quer entrar no terreiro do outro, você precisa conversar com os mais velhos, o pajé e o cacique. Senão, é deselegante. Nada contra os parentes, eles são bem-vindos no Rio. Mas por que foram convidados para discutir a Aldeia Maracanã se muitos nunca moraram lá? Por que não fomos convidados?" A certo ponto, Zé, Arão, Ash e companhia foram convidados a se retirar do hotel. Do lado de fora, Zé sussurrou: "Queria voltar na Aldeia pra pegar meus panos de bunda. É pedir muito?"

Muito, não sei. Mas Zé sabe: 18 de dezembro lembrou 23 de março, o choque após a Choque. No passado, Zé reuniu a tribo e partiu para Botafogo, no novo Museu do Índio, o "outro lar", e foram acusados de invadir a casa amarela. "Na época, ficamos sem rumo. É assim que estamos agora, sem rumo. Não sei o que vamos fazer. Só sei que quero voltar pra Aldeia Maracanã, pode escrever." Escrito está, mas se eles vão voltar é outra história e, como dizia o poeta, eles passarão, eu passarinho.

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