EUA devem cortar benefícios tarifários à Bolívia

Motivo da decisão seria fracasso no programa de combate às drogas.

Marcia Carmo, BBC

26 de setembro de 2008 | 21h51

O anúncio divulgado pela Casa Branca, nesta sexta-feira, de que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, propôs a suspensão das preferências tarifárias que seu país oferece à Bolívia gerou preocupação entre exportadores bolivianos. "Proponho suspender a designação da Bolívia como país beneficiário da Lei de Preferências Tarifárias Andinas e Erradicação de Drogas (ATPDEA, na sigla em inglês)", diz o texto oficial americano, assinado por Bush. No comunicado, divulgado pela representante de comércio americano, Susan Schwab, destaca-se que a Bolívia não tem cumprido sua promessa de combate às drogas.O anúncio ocorre duas semanas depois de que o presidente da Bolívia, Evo Morales, expulsou o embaixador americano em La Paz, Philip Goldberg, acusado por ele de conspiração contra seu governo. A iniciativa de Morales levou o governo americano a expulsar o embaixador boliviano em Washington.Dias depois das expulsões, os EUA incluíram pela primeira vez a Bolívia na lista de países que as autoridades de Washington classificam como produtores de drogas ou que são usados como corredores por traficantes.Preocupação"A decisão americana sobre a ATPDEA é um desastre para a Bolívia", disse à BBC Brasil, por telefone, o presidente da Câmara de Exportadores de La Paz, Guillermo Pou Munt. "Pelo menos 25 mil empregos dependem desta preferência tarifária só aqui em La Paz, a região que será mais afetada", disse. "As exportações bolivianas vinham registrando crescimento sustentável, em torno de 5% a 10% ao ano, graças a esta tarifa zero de exportação", afirmou Pou Munt. Segundo a imprensa local, o governo boliviano estima que esta preferência tarifária americana está diretamente ligada a cerca de 100 mil postos de trabalho no país. O ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, reagiu à iniciativa de Bush afirmando que ela "é mais uma agressão do presidente Bush contra nosso país".A ATPDEA oferece tarifa zero nas exportações de alguns produtos em troca da erradicação de drogas na Comunidade Andina - além da Bolívia, Peru, Colômbia e Equador fazem parte do programa. O benefício foi implementado nos anos 1990 e renovado no início dos anos 2000. Com esta lei, pretende-se estimular a geração de empregos e evitar a busca de ocupação no tráfico de drogas.Queda nas exportaçõesDe acordo com dados da Câmara de Exportadores de La Paz, a Bolívia exportou US$ 377 milhões para o mercado americano no ano passado. Estima-se que pelo menos 40% do total é representado por produtos com preferências tarifárias. No caso da Bolívia, a ATPDEA beneficia os setores têxtil e de couro. Segundo Pou Munt, no início deste ano, a expectativa era de que as exportações bolivianas para o mercado americano chegassem a US$ 420 milhões. O presidente da Câmara Nacional de Exportadores, Eduardo Bracamonte, afirma que as vendas da Bolívia para os Estados Unidos serão "fortemente" afetadas, após a iniciativa de Bush - que ainda depende de trâmites burocráticos e aprovação parlamentar para entrar em vigor. "Mas já consideramos uma decisão tomada e lamentamos muito por isso", disse Bracamonte.DrogasNa semana passada, o governo americano alertou a Bolívia para os "poucos efeitos" de seus programas de combate às drogas. Esse teria sido, oficialmente, um dos principais motivos para a suspensão da ATPDEA para a Bolívia. No início desta semana, ao discursar na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Morales reiterou suas críticas ao governo americano e ressaltou que Bush critica o terrorismo, mas não cita o que a direita tentou contra ele na Bolívia, o que Morales classifica como "um golpe civil empresarial e estadual". Nesta sexta-feira, o secretário geral da OEA (Organização de Estados Americanos), o chileno José Miguel Insulza, disse à imprensa do Chile que não acredita que os Estados Unidos tenham intenção de derrubar o governo Morales. "Acho que Estados Unidos não querem esse tipo de problemas na região porque têm muitos outros para enfrentar".A expectativa era de que o Congresso americano definisse em dezembro, após as eleições presidenciais, de novembro, se ampliará ou não a ATPDEA.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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