EUA e China: sombra de um G2?

EUA e China: sombra de um G2?

Análise originalmente publicada no Estadão Noite

Cristina Soreanu Pecequilo, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2014 | 14h09

Realizada em Brisbane, na Austrália, a reunião do G20 mobilizou a comunidade global em torno dos temas do crescimento e desenvolvimento, repetindo a dinâmica estabelecida desde a eclosão da crise econômica de 2008. Independente dos resultados da cúpula, uma sombra significativa interpôs-se a essas negociações, desenhada a partir de outros dois acontecimentos: o avanço de relações bilaterais entre os Estados Unidos e a China e o encontro da APEC (Cooperação Econômica na Ásia Pacífico). Tal sombra sinaliza o fortalecimento de um potencial “G2” no equilíbrio de poder, embora os envolvidos, Estados Unidos e China, neguem a polarização da parceria estratégica e a elevação de sua importância como referencial da estabilidade (ou instabilidade) da política internacional.

Em termos bilaterais, diversos arranjos caracterizaram as últimas semanas, começando pelo acordo de ampliação da validade dos vistos de viagem, a fim de maximizar intercâmbios econômicos. Somaram-se agendas adicionais de comércio e investimentos, e outro fato mais significativo: o estabelecimento de um compromisso no campo climático, visando a redução de emissão de poluentes nos dois países. Os norte-americanos teriam como meta reduzir seus níveis de emissão entre 26 e 28% até 2025 (tendo como referência valores de 2005). Para a China, o ano chave seria 2030, quando suas emissões atingiriam um pico, simultâneo à diversificação da matriz energética para a utilização de combustíveis não fósseis, para que passem a compor até 20% dessa matriz. O que significaria esse “pico” chinês ou como o governo norte-americano negociaria com o Legislativo a aprovação da proposta e, para ambos, como isso impacta em índices de crescimento, são questões em aberto.

O que chama a atenção é a bipolaridade crescente Estados Unidos-China que atropela outros fóruns e coalizões. Nisto se incluem as relações dos Estados Unidos com seus parceiros da União Europeia, a aliança com o Japão, e, do lado da China, sua ação como nação emergente via BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ou coalizões Sul-Sul como o G-20 comercial e o BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China), criado para conversações sobre o clima. 

O palco desses acordos sino-americanos foi a reunião da APEC, sinalizando a continuidade da ofensiva dos Estados Unidos no Pacífico, buscando retomar seu espaço geopolítico e geoeconômico diante da expansão chinesa (que também se aproveitou da estagnação japonesa e sua iminente recessão). Criada em 1990, pelo presidente George H. Bush, a APEC visa a criação de uma zona de livre comércio regional, sob a liderança estadunidense, e atravessou momentos de irrelevância. No governo Obama, renasceu como estratégica, no contexto da criação do “pivô asiático” dos Estados Unidos. Denominada de Parceria Transpacífica (TPP), essa iniciativa conjuga fatores militares e econômicos, e pressiona não só a China, mas igualmente a Índia e mesmo o Brasil (afetando as nações “pacíficas” da América do Sul, como Peru e Chile), e faz uma ponte para o acordo de livre comércio Estados Unidos/União Europeia em negociações secretas (a Parceria Transatlântica, a TPPI).

Para a China, o acordo climático apareceu como uma forma de relativizar tensões com os Estados Unidos, e sinalizar sua escala de influência como potência global. A opção por uma forte participação chinesa na APEC é uma reação dupla aos TPP/TPPI, tentando também um reposicionamento estratégico diante da ofensiva norte-americana. Enquanto isto, o país não deixará de perseguir suas próprias ofensivas na África e na América Latina, tentando ampliar sua margem de manobra diante dos Estados Unidos e relativizar sua dependência dos mercados ocidentais. 

Para ambos, mais do que força, a hipótese de um G2 significa fraqueza, que revela a continuidade da vulnerabilidade econômica mútua, forçando a este jogo de engajamento e contenção bilateral. Em uma escala maior isso pode prejudicar sua imagem, quebrando mitos como o da valorização do multilateralismo estadunidense (e da aliança ocidental) ou do desenvolvimento pacífico chinês como nação do Terceiro Mundo. Não se trata (ainda) de uma nova Guerra Fria, mas de uma movimentação político-estratégica-econômica natural que torna, em alguma medida, as demais nações coadjuvantes.

* Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e autora de “Os Estados Unidos e o Século XXI” e “A União Europeia”

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