EUA vivem crise de fé no futuro

Otimismo de chineses e sua taxa de crescimento econômico causam ansiedade em americanos

David Brooks, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Quando os colonos europeus chegaram à América do Norte, viram bandos de gansos tão grandes que levavam 30 minutos para que todas as aves levantassem voo e florestas que pareciam estender-se ao infinito. Chegaram então a duas conclusões: que os planos de Deus para a humanidade poderiam se concluir na nova terra e, no meio tempo, eles poderiam ficar realmente ricos.

Este materialismo moral fomentou uma espécie de energia frenética. Os americanos tornaram-se famosos por sua energia e por ser viciados em trabalho, deslocando-se continuamente, mudando de emprego, casando e divorciando, criando novos produtos, e por suas cruzadas em defesa da justiça.

Isto poderá parecer algo efêmero, mas esta fé escatológica no futuro motivou gerações de americanos, assim como a fé religiosa motiva um missionário. Pioneiros e imigrantes suportaram as dificuldades do presente crentes de que o futuro lhes reservaria a abundância. Pessoas dotadas de espírito empreendedor fundam empresas com uma confiança desmedida em suas chances de sucesso. A fé é o núcleo fundido do dinamismo do país.

Periodicamente, há também crises de fé. Hoje, a ascensão da China está criando uma crise do gênero. Não é apenas a taxa de crescimento econômico da China que provoca ansiedade. O problema mais profundo é espiritual. Embora os chineses pertençam a uma famosa civilização antiga, parecem possuir algo do vigor que outrora definia os EUA. Atualmente, os chineses são um povo espantosamente otimista - 86% por cento deles acreditam que seu país está na direção certa, em comparação com 37% dos americanos.

POTENCIAL

Hoje, os chineses têm uma fé imensa em seu potencial científico e tecnológico. Newsweek e Intel acabam de informar os resultados de sua Pesquisa sobre Inovação Global. Apenas 22% dos chineses creem que seu país já é um líder da inovação, mas 63% acham que seu país será o líder global em tecnologia daqui a 30 anos. Segundo a pesquisa, a maioria dos chineses crê que a China produzirá a próxima grande inovação capaz de modificar a sociedade, enquanto apenas um terço dos americanos acredita que o próximo grande avanço ocorrerá aqui.

A Revolução Cultural aparentemente produziu entre os chineses a mesma tendência frenética que as experiências de pioneiros e imigrantes criaram entre os americanos. O povo que suportou os horrores de Mao viu o que de pior a vida pode proporcionar e, agora, preocupa-se em construir alicerces seguros. Ao mesmo tempo, eles e seus filhos parecem inflamados pela experiência de viver em meio a tanto progresso e um progresso tão acelerado.

"Você entende?" perguntou um funcionário do partido da Província de Shanxi a James Fallows, do jornal The Atlantic. "Não fosse graças a Deng Xiaoping, neste momento eu estaria atrás de um boi num campo. Você entende como tudo mudou?"

Nos EUA, a ansiedade é causada pela vaga sensação de que eles têm o que nós supostamente temos. Não é a renda per capita, porque provavelmente a chinesa jamais chegará ao mesmo patamar da americana. O mais importante é a fé no futuro.

A China, que o presidente Obama acaba de visitar, convida de certo modo a sonhar. E torna-se óbvio constatar quanto os EUA afastaram-se do seu rumo em geral voltado para o futuro, e quanto isto pode exasperar.

Atualmente, os EUA têm uma economia excessivamente centrada no consumo, no endividamento e nas importações, e muito pouco na produção, na inovação e nas exportações. Agora, a crescente dívida federal, responsável pela indulgência presente e pelos problemas futuros, não para de crescer. Outrora, os americanos confiavam em que seu país se tornaria mais produtivo porque cada geração era mais especializada do que a anterior. Isso deixou de ser verdade.

O sistema político agora se queixa ao aprovar coisas fáceis - cortes de impostos e ampliação da cobertura do seguro saúde - e é incapaz de aprovar coisas difíceis - contenção dos gastos ou controle dos custos do sistema de saúde.

Hoje em dia, é comum os americanos culparem-se mutuamente pela dissipação do país, invocando o puritanismo fiscal. Seria bom que algum líder induzisse o país a voltar a sonhar com o que o futuro pode lhe reservar. Isso implicaria conectar políticas distintas - educação, inovação tecnológica, financiamento de pesquisa básica - a uma única narração de longo prazo. Implicaria criar estratégias regionais, pois a inovação se dá em clusters geográficos, e não no plano nacional. Implicaria encontrar formas de conter o consumo e premiar a produção. O guia mais pragmático para tudo isso continua sendo o ensaio de Michael Porter, publicado na edição de 30 de outubro de 2008 da revista Business Week.

À medida que a crise financeira amainar, será bom que os americanos comecem novamente a sondar o horizonte.

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