Ex-diretor do 'Estado' morre em SP aos 86

Jornalista e advogado, Cesar Costa ocupou várias funções nos 42 anos em que trabalhou no Grupo Estado

ROBERTO GODOY, , O Estado de S.Paulo

30 Maio 2012 | 03h07

Memória

O jornalista e advogado Cesar Tácito Lopes Costa, ex-diretor administrativo do Grupo Estado, morreu na manhã de ontem, aos 86 anos. O corpo de Costa foi enterrado às 17 horas no Cemitério da Consolação.

O ex-diretor do Estado havia sido internado no Hospital Oswaldo Cruz há duas semanas após sofrer um acidente doméstico. Foi submetido a uma cirurgia neurológica, mas não resistiu às complicações decorrentes da operação.

Casado com Maria Amad Costa, deixa dois filhos - Luis Cesar Amad Costa e Sérgio Amad Costa - e netos.

A figura mansa e elegante do jornalista e advogado Cesar Costa circulando pela redação do Estadocumprimentando e elogiando trabalhos publicados, é a lembrança mais clara dos companheiros e amigos que fez na empresa mesmo depois da aposentadoria, há pouco mais de 17 anos, em janeiro de 1995. Embora retirado, jamais deixou de frequentar o jornal.

Cesar Costa preservava acima de tudo a discrição. Todavia, a vida profissional o levou a ter intensa exposição pública. Ele atuou durante muito tempo como uma espécie de chanceler do jornal. Ao longo de boa parte dos 42 anos que dedicou ao Grupo Estado, onde ingressou há 60 anos, teve incluída em suas atribuições a tarefa de receber autoridades, delegações de diplomatas, dignitários e políticos; às vezes, também músicos, artistas e esportistas.

Tinha gosto pela arte, com dedicação especial à música de concerto. Empenhou-se efetivamente, mas sempre sem alarde, em campanhas pela consolidação de entidades do setor, como a Sociedade de Cultura Artística da qual recebeu o título de Amigo da SCA.

Relatório. Costa viajou pelo Brasil e pelo mundo representando o jornal ou os diretores Júlio Mesquita Filho e, mais tarde, Júlio Mesquita Neto, em fóruns dedicados a discutir a liberdade de imprensa. No início dos anos 70 integrou uma comissão internacional com mandato da Organização das Nações Unidas (ONU) para elaborar um relatório a respeito das restrições à atividade jornalística na China e na África do Sul. O documento permaneceu como referência por mais de 20 anos.

Cesar Tácito Lopes Costa foi repórter de assuntos gerais quando chegou ao jornal, em 1952. Pouco depois passou a redator da editoria Economia, onde se manteve até 1964, ano em que assumiu a recém-criada Diretoria Administrativa.

Em 1971, nomeado diretor estatutário, teve expandidas as funções passando a trabalhar na condição de elo de ligação entre a Diretoria e a Redação. Como dirigente, tratava diretamente com as diretorias Plena e Executiva, mais os Conselhos Consultivo e de Administração.

Em 1975 participou da equipe responsável pela mudança do jornal para as instalações da Marginal do Tietê, na Avenida Engenheiro Caetano Alvares, no bairro do Limão.

A transferência, em junho de 1976, foi complexa. "O prédio estava longe de ser considerado completo, as impressoras descalibradas mandavam para as ruas edições borradas de tinta, e os poucos elevadores liberados tinham cabines feitas com a madeira reaproveitada dos tapumes. Ainda assim, o jornal não deixou de circular um só dia", disse Costa em depoimento a estudantes de jornalismo, em 1990.

Na mesma entrevista revelou que não tinha um hobby "a não ser que caminhar pelas ruas e parques da estância de Campos do Jordão com os netos possa ser considerado como tal".

Formação. Ex-aluno do sistema de ensino da Companhia de Jesus, tinha formação em Filosofia e, em 1959, graduou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). Durante o curso, contava aos amigos, sentava-se no meio da sala de aula, "nem tanto ao fundo que pudesse ser confundido com a turma da bagunça, nem muito à frente a ponto de parecer um dos super-dedicados". Acabou escolhido pelos dois grupos de alunos para orador da turma, a "Clovis Bevilacqua".

O repórter Cesar Costa produziu em 1961 uma série, publicada na editoria de Economia, sobre as Ligas Camponesas, em ação no Nordeste, lideradas por Francisco Julião Arruda de Paula. As reportagens discutiam a ação revolucionária das Ligas e a proposta da reforma agrária radical que parecia agradar ao governo populista da época. O trabalho foi um dos dois finalistas do Prêmio Esso de Jornalismo.

Espiritualidade. Homem de profunda e sólida fé religiosa, cooperador da instituição católica Opus Dei - corrigia os repórteres, informando que o nome correto é 'o' Opus Dei ("o Trabalho de Deus", explicava) -, ajudava a organizar todos os anos a Missa em Ação de Graças, celebrada na sede da empresa, em 8 de dezembro, dia dedicado à Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Devoto de São Josemaria Escrivá, padre espanhol fundador do Opus Dei, canonizado pelo papa João Paulo II em 2002, Cesar Costa evocava frequentemente o que considerava "o mais marcante aspecto da vida (do santo espanhol): a experiência do perdão de Deus, prática que nos leva a saber perdoar".

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