Ex-líder liberiano Charles Taylor é condenado a 50 anos de prisão

O ex-presidente liberiano Charles Taylor foi condenado nesta quarta-feira a 50 anos de prisão por ter ajudado rebeldes de Serra Leoa a cometerem o que um tribunal de Haia qualificou como alguns dos piores crimes de guerra da história.

THOMAS ESCRITT E ANTHONY DEUTSCH, REUTERS

30 Maio 2012 | 10h05

Taylor, de 64 anos, se tornou o primeiro chefe de Estado condenado por um tribunal internacional, e a sentença estabelece um precedente para o sistema de Justiça transnacional que começou a se formar com o julgamento de nazistas após a 2a Guerra Mundial.

Durante 11 anos de conflito (1991-2002), a Frente Unida Revolucionária de Serra Leoa cometeu assassinatos, estupros e mutilações, ajudado pelo então presidente da vizinha Libéria, que se beneficiava do tráfico de diamantes feito pelos rebeldes.

"Ele foi considerado responsável por auxiliar em alguns dos mais hediondos e brutais crimes registrados na história", disse o juiz Richard Lussick, presidente da Corte Especial para Serra Leoa. A promotoria pedia 80 anos de prisão para o réu.

"É realmente significativo que o status de Taylor como ex-chefe de Estado tenha sido levado em conta como fator agravante na sua sentença", disse Geraldine Mattioli-Zeltner, da entidade Human Rights Watch. "Foi um precedente muito importante, e espero que Bashar al Assad, da Síria, e Omar Hassan al Bashir, do Sudão, tomem nota."

Acusado de genocídio, Bashir é procurado pelo Tribunal Penal Internacional, que em breve também começará a julgar o ex-presidente marfinense Laurant Gbagbo. Assad, da Síria, não está sendo processado atualmente por causa da repressão à oposição.

Vestindo terno azul e gravata amarela, sentado e impassível, Taylor escutou a leitura da sentença durante cerca de 45 minutos. Com as mãos juntas diante da boca e o semblante franzido, ele demonstrava desconforto quando a câmera do tribunal o focava.

Entre as atrocidades descritas por Lussick estavam a amputação de membros --marca registrada desse conflito--, um estupro coletivo em que a vítima teve os olhos arrancados para não poder identificar os agressores, e o caso de uma mãe obrigada a carregar um saco com cabeças humanas, inclusive a de seus filhos.

"Ela foi forçada a rir enquanto carregava o saco com sangue escorrendo", disse ele. "Ela viu as cabeças dos seus filhos."

Taylor deve cumprir a pena numa penitenciária de segurança máxima na Grã-Bretanha.

Em Monróvia, capital da Libéria, um porta-voz da família Taylor qualificou o julgamento como uma farsa. "Fizeram isso porque a América e a Grã-Bretanha querem usar nossos recursos. Taylor não cedeu a eles por nosso petróleo. Eles precisaram fazer isso para pegar nossos recursos", disse Sando Johnson.

Defesa e acusação devem recorrer da sentença.

(Reportagem adicional de Sikonon Akam em Freetown e Alphonso Toweh em Monróvia)

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