Ex-líder sérvio bósnio Karadzic acusa promotor de mentir em julgamento em Haia

O ex-líder bósnio sérvio Radovan Karadzic acusou promotores de mentirem sobre seu papel na guerra civil da Bósnia para compensar uma falta de provas, ao apresentar sua defesa no final deste longo julgamento de genocídio.

THOMAS ESCRITT, REUTERS

01 de outubro de 2014 | 10h29

Promotores estão pedindo a pena máxima, de prisão perpétua, contra Karadzic, que tem 69 anos e foi um líder político durante a guerra civil na Bósnia (1992-1995), que deixou 100 mil mortos.

Ele é acusado de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, por crimes cometidos quando o exército sérvio de Karadzic tentou livrar a Bósnia de croatas e muçulmanos.

Karadzic, que está apresentando sua própria defesa após recusar os serviços de um advogado, rejeitou as acusações nos comentários de encerramento do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia.

“Considerando que o distinto advogado da promotoria, Sr. Tieger, não tinha provas, ele escolher manchar minha personalidade, ele me chamou de mentiroso e de mafioso”, disse ele, culpando outros políticos pelo pior banho de sangue na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

“Ele provavelmente não teria feito isso se tivesse uma única prova concreta contra Radovan Karadzic."

Concluindo o caso nesta semana após quatro anos de andamento em Haia, os promotores disseram na segunda-feira que Karadzic havia sido a força motriz em uma campanha genocida.

Karadzic enfrenta acusações de genocídio pela morte de mais de 8.000 muçulmanos de Srebrenica, quando forças étnicas sérvias executaram prisioneiros.

Karadzic, que esteve desaparecido por 13 anos após ser indiciado em 1995, também enfrenta acusações relacionadas ao cerco de 43 meses contra Sarajevo, a capital da Bósnia, no qual mais de 5.000 civis foram mortos.

O promotor Alan Tieger disse na segunda-feira que o testemunho de centenas de testemunhas e 80 mil páginas de transcrições haviam provado que Karadzic havia liderado uma política de “limpeza étnica” - o termo dado à campanha de assassinatos e deslocamentos forçados.

Karadzic negou responsabilidade, mas disse que não apontaria culpados pelos massacres, um evento que galvanizou a opinião internacional e levou às conversas de paz.

“Eu nunca culpei os outros por Srebrenica, porque eu não sei o que aconteceu”, disse ele.

Os massacres de julho de 1995 foram a pior atrocidade das guerras dos Bálcãs nos anos 1990, as quais resultaram na cisão da federação da Iugoslávia em seis países. Kosovo, então uma província sérvia, também ganhou a independência.

Karadzic disse a juízes da ONU que havia alertado Alija Izetbegovic, líder do governo bósnio em Sarajevo, já falecido, sobre o risco de levar a Bósnia para uma guerra civil ao buscar a secessão do país.

“Foi Izetbegovic que sugeriu primeiramente que dividíssemos a Bósnia e aplicássemos suas ideias islâmicos somente na parte muçulmana do território”, disse Karadzic.

“Eu, na verdade, antecipei o que aconteceria”, disse ele. “Centenas de milhares de pessoas morreriam e centenas de cidades seriam destruídas.”

Nos últimos comentários da defesa apresentados na segunda-feira, Karadzic repudiou a maioria dos crimes cometidos na Bósnia, chamando Srebrenica de “um ato horrível”, mas não de genocídio.

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