Ex-ministros e cientistas pedem Rio₊20 mais verde

Para grupo liderado por Goldemberg e Ricupero, falta meio ambiente na agenda; eles pedem resolução mais incisiva

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo,

14 Março 2012 | 03h02

Insatisfeitos com a agenda da Rio+20, pesquisadores e ex-ministros do Meio Ambiente estão elaborando um texto com críticas e sugestões ao governo a fim de incentivá-lo a trabalhar por um documento final que traga propostas mais efetivas para a obtenção da tão falada economia verde.

Os líderes do grupo têm conhecimento de causa para falar sobre o que foi a Rio 92 - e, em comparação a ela, quais são as perspectivas para a Rio+20. José Goldemberg era o secretário de Meio Ambiente (ainda não havia o ministério) em 92; e o ex-embaixador Rubens Ricupero, um dos principais negociadores da conferência de 20 anos atrás.

"A Rio+20 é uma conferência sem proposições", diz Goldemberg. Ele afirma que no "draft zero", o rascunho do que deve ser o documento final, de 128 parágrafos, 120 "são simplesmente exortações aos governos a fazer isso ou aquilo". No restante, quatro deles se referem à reformulação ou não do Pnuma (o órgão das Nações Unidas para o ambiente) e "muito pouco de fato propõe ações novas ou aprofundamento das ações já definidas".

A preocupação não é só dos brasileiros. Em fevereiro, um grupo internacional de pesquisadores laureados com o "Blue Planet Prize", espécie de Nobel das pesquisas ambientais, elaborou um documento em Londres criticando a falta de menções às questões climáticas na Rio+20.

Segundo Goldemberg, o único brasileiro do grupo, os cientistas lamentaram o fato de os "preparativos não reconhecerem a gravidade e urgência das mudanças climáticas". O ex-secretário diz que entre eles já nem se considera mais o plano de tentar manter a elevação da temperatura em no máximo 2°C. "Consideram que vai subir de 3°C a 5°C."

Para eles e para o grupo brasileiro, um dos problemas é que a conferência não é de ambiente, mas de desenvolvimento sustentável, seguindo o tripé economia verde, inclusão social e ambiente. "O erro é achar que os três aspectos são iguais em termos de essencialidade. Não são. Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico. A vida na Terra será afetada de tal modo que todo o resto entrará em colapso", diz Ricupero.

Segundo ele, o texto que está sendo elaborado tem duas partes: na primeira, eles propõem que a agenda se concentre mais no ambiente e não se ignore a questão climática; a segunda é dirigida ao governo.

Baixo carbono. Mesmo que o discurso oficial fique em torno da economia verde, a percepção dos brasileiros é de que a questão está mal elaborada. "Embora o governo esteja fazendo esforços para reduzir as emissões com a redução do desmate, não está fazendo praticamente nada na área de políticas para a economia verde. Na maioria dos países, as duas coisas estão ligadas. Mas aqui não. Ainda não há, por exemplo, um incentivo para uma migração para uma energia de baixo carbono."

É justamente nesse sentido que o documento vai sugerir que o Brasil atue. No fim do mês ocorre em Nova York mais uma conferência preparatória da Rio+20 para discutir o texto.

"O documento final deveria trazer recomendações muito fortes para que a conferência do clima ande mais depressa. Há alguns dispositivos no rascunho zero que propõem, por exemplo, que a fração de energias renováveis na matriz mundial dobre até 2030. A conferência poderia estabelecer imediatamente um mecanismo para isso ocorrer", afirma Goldemberg.

"Sobretudo achamos que a Rio+20 deve resultar em um compromisso dos países para cada um elaborar metas de transição de economia de baixo carbono", diz Ricupero. "A preocupação deve nascer na presidência e permear todos os ministérios."

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