Exame para supletivo tem forte abstenção em SP

Em busca da chance de recuperar o tempo perdido, candidatos aos cursos supletivos promovidos pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo prestaram exame de seleção hoje das 8 às 18 horas. Surpreendeu o número de faltantes, que chegou a 67% do total de inscritos na Escola Estadual Silva Jardim, no Tucuruvi, zona norte de São Paulo.Em todo o Estado, 254 mil pessoas se inscreveram para completar o Ensino Fundamental e Médio. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação, a Fundação Vunesp só divulgará o índice de abstenção amanhã (3). Foram aplicadas três provas, uma para cada grupo de disciplinas.Na Silva Jardim, 667 se candidataram para cursar Língua Portuguesa, Inglês e Educação Artística, mas apenas 220 compareceram. Para Ciências e Matemática foram 632 inscritos e 205 presentes. Em História e Geografia, de 671 interessados apenas 218 fizeram a prova.Para o diretor da escola, Eraldo Sampaio, coordenador do concurso no prédio, pode ter havido dificuldades na hora da inscrição para as provas. "São pessoas muito simples, sem acesso ao computador, que podem ter cometido erros quando se candidataram." As inscrições, gratuitas, foram feitas em 2007 pela internet e em escolas estaduais.Sampaio diz que há dois anos observa o aumento no número de ausências, mas se surpreendeu com esse concurso. "Ficamos chateados, pois é muito material, pago com dinheiro público, jogado fora", lamenta referindo-se às pilhas de provas e folhas de respostas de candidatos faltantes."Medo e vergonha"A Silva Jardim oferece supletivo no turno da noite para 640 alunos, em 16 turmas. "É um trabalho muito gratificante", conta Sampaio. "Tem gente de até 60 anos voltando a estudar. Isso é sede de aprender."É o que sente a costureira Laura Barreto Vieira, de 55 anos, que completou em 2003 a 8ª série em um curso supletivo e agora quer ingressar no Ensino Médio. É a forma que encontrou para dar fim ao vaivém de seu histórico escolar. Laura começou o colégio na Bahia, mas mudou para São Paulo com 8 anos de idade, onde estudou por dois anos.Voltou para o Nordeste e, com 17 anos, tomou o rumo da capital paulista mais uma vez. Foi quando se afastou da escola para se dedicar ao trabalho. "O arrependimento é muito, porque eu trabalhava perto de um colégio. Podia ter continuado os estudos", conta Laura. "Eu sentia medo e vergonha de ir à escola. Não tinha quem me incentivasse."A costureira planeja fazer um curso de Enfermagem depois de concluir o Ensino Médio. "Quero ser voluntária em hospitais e orfanatos quando me aposentar, para ajudar as pessoas que eu ainda não tive tempo de ajudar."Apesar de ter achado as provas de Matemática e Ciências ''muito difíceis'', Laura está confiante no resultado do concurso. "Estudei um pouco nos intervalos do trabalho", conta. "Tenho fé que vai dar certo."Matemática é bicho-papãoA Matemática também é o bicho-papão da cabeleireira Marli Botelho Pinheiro de Almeida, de 47 anos. "Não sou muito chegada a números", conta. "É uma coisa que não entra na minha cabeça." Ela se dedicou principalmente para estudar Ciências e acredita que a disciplina pode puxar sua nota para cima na busca por uma vaga na 8ª série do supletivo.Marli teve de parar de estudar com 23 anos, quando nasceu sua primeira filha. Hoje é essa filha quem tem 23 anos e cursa o último ano da faculdade de Fisioterapia. "Eu não tive outra opção a não ser largar a escola para arranjar um trabalho fixo e sustentar minha filha", diz. "Agora que estou estabilizada, posso voltar a estudar."A cabeleireira conta que o estímulo para retomar os estudos veio das filhas, amigas e clientes do salão de beleza. "A gente lida com público de todas as classes sociais, então precisa aprender a se comunicar com todos."O vitrinista Reinaldo Cezar de Lima, de 55 anos, conta que conseguiu passar bem pela Matemática e está confiante na aprovação. "Apesar de estar há 30 anos fora da escola, ainda lembro bem de muitas coisas", diz. Lima cursou até a 8ª série quando era jovem, mas, por problemas de saúde, deixou de fazer as provas finais. "Logo depois casei e tive filhos", diz o vitrinista. "Era muita coisa para tratar."Hoje, Lima corre atrás do diploma de Ensino Fundamental para participar de concursos públicos. O objetivo é conquistar estabilidade e um salário mais alto. "Para isso, precisa de estudo", lembra.Busca de sonhosDesde pequena, a cozinheira Maria Renilda, de 56 anos, cultiva dois sonhos: ser aeromoça e advogada. "Para aeromoça não tenho mais idade", diz. "Quem sabe advocacia? É um sonho e vou lutar por ele."Para seguir o sonho, Maria vai precisar voltar aos livros, que abandonou há 19 anos, quando cursava a 7ª série. "Arranjei um companheiro que me pediu para deixar de estudar e trabalhar", conta. "A gente cria os filhos, fica sozinha e tem de achar uma esperança na vida."A de Maria foram os estudos. A cozinheira conta com o apoio de uma ''professora'' muito especial. "Minha netinha de 13 anos me empresta os cadernos dela e estuda comigo", diz. "Estou confiante de que vou conquistar meus objetivos."Juliano Passalacqua, de 30 anos, também acalenta um sonho - entrar para a Polícia Civil. "Tenho amigos policiais que me despertaram o interesse por essa área", diz. Os dois assaltos que sofreu também estimularam Passalacqua a buscar a carreira policial. "Quero fazer justiça."O jovem, que está desempregado, interrompeu os estudos na 6ª série, depois do divórcio dos pais. "Tive de mudar muitas vezes de cidade e senti que a própria vida não me deixava voltar aos estudos", diz, determinado a mudar o rumo das coisas. "Mas tomei com meta esse ano acabar com isso e estou começando pelo primeiro degrau."

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