Excentricidades de um rei comilão

Os banquetes sempre foram usados pelos seus anfitriões para a exibição de riqueza, prestígio social e poder, tanto por meio da comida opulenta como do ritual luxuoso. Mas poucos souberam fazer isso tão bem quanto Luís XIV, o Rei Sol, que governou a França entre 1643 e 1715, revelando-se um soberano enérgico e autoritário. "O Estado sou eu", declarou ele ao Parlamento que discutia a reforma das finanças. Tentando romper o equilíbrio entre as potências europeias e estabelecer a hegemonia de seu país, impressionou o mundo com banquetes monumentais à luz de velas, realizados durante fêtes - celebrações que duravam vários dias, com desfiles de carros, torneios, espetáculos pirotécnicos, balés, peças de teatro, etc. Só na década de 1664-1774 encenou três, acompanhadas de uma comilança cuja suntuosidade, no testemunho de um contemporâneo, "ultrapassou qualquer coisa que se possa descrever, tanto por sua abundância como pela delicadeza das coisas servidas".   Veja também: Receita de cordeiro à moda do Rei Sol   O inglês Roy Strong, no livro Banquete - uma História Ilustrada das Culinária, dos Costumes e da Fartura à Mesa (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2004), observou que o Rei Sol teve o cuidado de registrar em detalhes as fêtes, em volumes ilustrados logo entregues ao domínio público. Uma das celebrações foi dedicada oficialmente à rainha-mãe Ana de Áustria, e à rainha Maria Teresa, mulher de Luís XIV, mas a verdadeira homenageada era a nova amante do rei, Louise de La Vallière, de 17 anos. O Rei Sol compareceu ao banquete alegórico fantasiado de Roger, personagem de Orlando Furioso, do italiano Ludovico Ariosto, um dos maiores poemas da literatura universal. O cenário não podia ser mais adequado: o suntuoso Palácio de Versalhes, mandado construir por Luís XIV nos arredores de Paris, suficientemente afastado dos tumultos e doenças da capital apinhada de gente. Considerado um dos maiores do mundo, hoje é museu. Possui 700 quartos, 1.250 lareiras e 2 mil janelas. Ali, o Rei Sol, homem desmesuradamente vaidoso - usava perucas enormes, mangas com enfeites venezianos e sapatos coloridos dotados de amplos laços e pedras preciosas, com saltos muito altos, para disfarçar a baixa estatura - concentrava suas excentricidades nas refeições. Acostumado desde criança a ter dezenas de criados à mesa, manteve o hábito e aumentou o séquito quando subiu ao trono. Transformou cada refeição em uma liturgia solene. No grand souper do meio-dia, por exemplo, os cortesãos reverentes o contemplavam extasiados usando pratos de finíssima porcelana e baixelas de prata e ouro. Ainda assim, quando lhe davam pedaços maiores de carne, dispensava o garfo e utilizava os dedos, embora os pegasse delicadamente. Introduziu na corte de Versalhes o ritual em que a comida vem à mesa oculta sob uma cúpula de metal, retirada apenas no momento do consumo. A refeição habitual do Rei Sol durava cerca de uma hora, mas o tempo aumentou à medida em que seus dentes foram estragando. O cardápio de Luís XIV se compunha basicamente de quatro sopas, alguns ovos cozidos, salada de legumes, presunto cru, um frango capão ensopado, uma perdiz e um faisão assados, frutas e doces. À noite, quando se recolhia ao quarto, encontrava sobre a mesinha ao lado da cama fatias de carne fria e uma bandeja cheia de docinhos, pois receava a fome da madrugada. O Rei Sol adorava tomar chocolate, um gosto adquirido na infância, reforçado pela rainha Maria Teresa, filha de Felipe IV da Espanha, o país que descobriu a novidade na América e a difundiu na Europa. À sua gulosa mulher atribui-se uma frase divertida. "O chocolate e o rei são minhas únicas paixões", teria afirmado ela, usando a ordem de preferência. Luís XIV fez a bebida virar febre no Palácio de Versalhes, sobretudo depois que seus confeiteiros a aprimoraram. Acrescentaram mel ou açúcar, baunilha, canela e eventualmente pimenta-do-reino. Em 1670, ordenou o plantio de cacau, matéria-prima da especialidade, na colônia francesa da Martinica. Com isso, os preços despencaram e tornaram o produto mais acessível. Assim, se não foi o pioneiro, contribuiu bastante para popularizar o chocolate em seu país. A tradição diz que os franceses conheceram a novidade em 1615, quando a mãe de Luís XIV, Ana de Áustria, filha de Felipe II da Espanha, casou com o pai dele, Luís XIII. A noiva já desembarcou com uma criada especializada no preparo de uma bebida que caiu no gosto público: além do aroma e sabor apetitosos, desfrutava da atraente reputação de ser afrodisíaca. Ela a consumiu pela vida afora, transmitindo o hábito tanto ao marido e ao filho como ao primeiro-ministro Giulio Mazzarino, o cardeal Mazarin, um francês de origem italiana, de quem virou amante e com o qual, após a morte de Luís XIII, teria casado secretamente. Desde então, o parceiro de alcova da rainha passou a dispor permanentemente de um chocolateiro pessoal. Depois de pegar o vício de Ana de Áustria, recusava-se até mesmo a viajar sem o criado especializado. Coisas de família...

Dias Lopes,

26 Fevereiro 2009 | 13h24

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