Existe consciência em um corpo paralisado?

Como saber se uma pessoa está consciente? Há séculos o problema preocupa filósofos. Foi tema de filmes de terror e faz parte do cotidiano de muitos neurologistas. Nesta semana o problema rondou os bares de São Paulo, por causa de uma notícia assustadora: uma pessoa paralisada por um acidente foi considerada inconsciente e tratada como se estivesse em coma. Agora, mais de 20 anos depois, descobriram que ela sempre esteve consciente, mas incapaz de se comunicar. O mais interessante é a maneira como os cientistas descobriram que ela estava consciente.

Fernando Reinach*, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

Determinar se uma pessoa está consciente parece simples. Na maioria dos casos você pergunta a ela qual o seu nome, onde mora, etc. Se por algum motivo ela não consegue falar, você pede que ela responda com um sinal de cabeça ou um piscar dos olhos. Basicamente é o método usado por qualquer neurologista. O problema é que esse método não determina se a pessoa está ou não consciente, mas somente se ela é capaz de sinalizar que está consciente. A consciência propriamente dita não pode ser medida diretamente.

Se você quer saber se uma pessoa está bêbada, você pode perguntar. Se ela negar, você pode medir a quantidade de álcool no sangue. No caso da consciência, não existe um exame físico que tire a dúvida. É o problema enfrentado pelos neurologistas quando se defrontam com uma pessoa totalmente paralisada, incapaz de sinalizar que naquele corpo imóvel há consciência. Esses casos são denominados de "lock-in-syndrome": uma mente consciente trancada em um corpo paralisado.

Muitos filósofos já trataram da impossibilidade de termos acesso direto à consciência de outra pessoa. O argumento é que a única consciência a que temos acesso direto é a nossa. Sabemos que estamos conscientes. Quanto ao estado da mente de todas as outras pessoas, somente podemos deduzir que estão conscientes com base nas suas respostas e nos seus atos. Se eu choro quando estou triste, imagino que uma pessoa que esteja chorando está triste. Se ela me confirmar oralmente que está triste, tanto melhor, deduzo que seus sentimentos sejam semelhantes aos meus. Mas esse é o limite.

Dado esses limites, descobrir se um pessoa está consciente é um problema semelhante a saber se um computador é inteligente ou mesmo consciente. Em 1950, Alan Turing, considerado o pai da teoria da computação, propôs um teste para saber se um computador era inteligente. Uma pessoa deveria perguntar por escrito ao computador o que quisesse. O computador responderia. Se analisando o diálogo não fosse possível descobrir se as respostas estavam vindo do computador ou de outra pessoa escondida atrás do terminal, deveríamos considerar que o computador possui inteligência. Até hoje não existem programas capazes de passar por esse teste.

Mas se é impossível saber se uma pessoa está consciente sem se comunicar com ela, como foi descoberto que esse paciente com "lock-in-syndrome" estava consciente durante os últimos 20 anos? A descoberta foi feita por um grupo de médicos do Centro de Pesquisas Sobre o Coma, da Universidade de Liège, na Bélgica, utilizando aparelhos de ressonância magnética capazes de medir a atividade cerebral.

Numa primeira etapa, os médicos determinaram que áreas do cérebro de uma pessoa normal são ativadas quando a pessoa, sem se mover, imagina que está praticando certas atividades. Se pedimos a uma pessoa que imagine que está discursando em um palanque, as áreas ativadas são diferentes das áreas ativadas quando ela imagina que está jogando tênis ou correndo. Conhecido o padrão de atividade cerebral de pessoas conscientes, os médicos pediram ao paciente que imaginasse que estava jogando tênis e mediram sua atividade cerebral. O cérebro reagiu como o de uma pessoa normal. O teste foi repetido com diversas solicitações e em todos os casos a atividade cerebral era compatível com o observado em uma pessoa consciente. Quando se convenceram de que o paciente provavelmente estava consciente, apesar de totalmente paralisado, os médicos tentaram descobrir ao menos um músculo que o paciente fosse capaz de controlar. Por meio do movimento desse músculo, passaram a se comunicar com o paciente e descobriram que durante 20 anos ele estava tentando avisar que estava ali, consciente.

Essas novas tecnologias, capazes de medir diretamente a atividade cerebral, não só ajudam a diagnosticar a presença de consciência em pessoas com "lock-in-syndrome", mas também demonstram que nossa mente nada mais é que nossa atividade cerebral. Um banho de água fria nas pessoas que ainda acreditam que mente e cérebro são entidades distintas.

*fernando@reinach.com

Biólogo

Mais informações: Thought translation, tennis and Turing tests in the vegetative state. Phenom. Cogn. Sci., Vol. 8, pag. 361

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