Existe ética relativa?

Lembro-me como se fosse hoje. Meu pai, professor, conversava na sala com um grande amigo. Chovia muito, de modo que não estávamos no quintal, brincando. Eu devia andar aí pelos meus 9 anos... Ouvi perfeitamente quando ele fez ao amigo a seguinte pergunta: "Você acredita, então, em honestidade relativa?" Não sei o que o amigo respondeu. Mas me lembro do que lhe foi dito logo em seguida: "Pense bem no que vai fazer. Não existe honestidade relativa. Ou você é honesto ou não é. Ou você é decente ou não é. Ou você faz o que é direito ou não faz. Essa história de "relativo" é só desculpa para contornar as leis." Quieta lá no meu canto, ouvi e jamais esqueci aquelas palavras.

Sandra Cavalcanti, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Quando fiz a primeira comunhão, ouvi do nosso vigário, o padre Nabuco, na Igreja de Santa Teresa, uma liçãozinha simples sobre o Pai-Nosso. Ele fez questão de explicar que nós, seres humanos, somos fracos diante das tentações. Por isso é que na única oração que o próprio Jesus ensinou a seus discípulos está dito: "Não nos deixes cair em tentação..." Qual é a tentação maior que temos de enfrentar? Achar que podemos encontrar sempre uma boa desculpa para cometer um ato errado. E, mesmo sabendo que está errado, encontrar motivos para relativizar o erro.

Já a sabedoria humana costuma ensinar que "a ocasião faz o ladrão". A prudência manda evitar a ocasião. Justamente para ajudar a evitar a ocasião é que existem as leis, as regras, os regulamentos. Na cultura de um povo, isso é fundamental.

Desde cedo, ainda em casa e depois na escola, é preciso estabelecer essas regras de convivência e comportamento. Regras que valem para todos, sem exceção. Quando as leis, os regulamentos e as regras começam a sofrer muitas exceções, instala-se o relativismo. Com ele se derrubam as cercas de segurança de que as pessoas tanto precisam. O relativismo é o grande mal do mundo moderno. A liberdade, que é o maior dom de Deus feito aos homens, passa a ser relativa. Mas liberdade relativa não existe. Quando o relativismo se instala nesse terreno, a liberdade acaba. Vai depender de quem a queira dosar...

O relativismo consegue que as pessoas deixem de lado valores reconhecidos e seguros. Hoje está certo, amanhã pode estar errado. A família, hoje, é relativa. O casamento é relativo. A palavra dada, hoje, é relativa. O contrato, hoje, é relativo. A dívida, hoje, é relativa.

É claro que existem áreas sempre relativas. Todas as que envolvem conhecimentos científicos, conquistas tecnológicas, pesquisas da natureza. Mas os valores fundamentais que orientam o comportamento do ser humano, esses não são relativos. Mentir é sempre mentir, trair é sempre trair, caluniar é sempre caluniar, roubar é sempre roubar, falsificar é sempre falsificar, matar é sempre matar, traficar é sempre traficar, desviar recursos públicos é sempre desviar recursos públicos. Não cumprir a palavra é sempre não cumprir a palavra.

O maior mal que o marxismo inoculou no mundo moderno foi a teoria de que os fins justificam os meios. Foi com esse relativismo cruel que mais de 12 milhões de pessoas foram assassinadas por Lenin e Stalin.

Quando o papa Bento XVI alertou sobre a devastadora realidade do relativismo que impera hoje no mundo, muita gente não prestou atenção. Mas se olharmos em volta, é isso o que vamos encontrar.

Na política, o relativismo faz sua melhor colheita. O direito de propriedade está garantido na Constituição. Mas se o MST invade uma fazenda e se dá ao luxo de destruir milhares de pés de laranja, o relativismo entra em cena. Todas as chamadas atenuantes aparecem. A lei não vale nada. Se uma autoridade pública, incumbida de zelar pelo patrimônio do País, dele se apossa sorrateiramente, o relativismo vem em seu socorro, alegando que outros também agem assim, logo... Se um deputado é apanhado com a boca na botija recebendo propinas, o chefe corre em sua ajuda, alegando que o motivo era de ordem partidária, o coitado estava cumprindo ordens e ele, o chefe, não sabia de nada...

Agora mesmo estamos vivendo um período completamente relativista. As leis estabelecem datas e prazos para as campanhas. Tanto para a Presidência quanto para governos de Estados e o Congresso. As eleições serão em outubro do ano que vem. Os partidos ainda não fizeram convenções. Os candidatos nem sequer estão registrados. O presidente, no entanto, anda pelo País todo, e até fora do território nacional, fazendo campanha presidencial em favor de uma candidata que ainda nem teve seu nome lançado numa convenção legal, realmente apoiado por algum partido. Criticado, o presidente se vale do relativismo. Todas as leis estão derrubadas por um argumento típico: ele, o presidente, não é candidato; logo, pode fazer campanha eleitoral fora do prazo! Isso é o que se chama ser relativamente honesto, relativamente legal, relativamente decente.

A atual cultura relativista é uma das mais terríveis deficiências de nosso comportamento cívico. Qualquer um que vá exercer mandato ou administrar a coisa pública vai estar sempre no fio da navalha. A mistura entre o público e o privado é a regra. E os que têm responsabilidade na iniciativa privada também se deixam contaminar por essa virose cultural. Atrelam-se aos Poderes e com eles cometem verdadeiros crimes contra o País.

Os orçamentos públicos, votados nos três escalões, são uma simples brincadeira. Nenhum deles é impositivo. Nenhum é, de fato, para ser executado. É tudo relativo. Se o Executivo quiser, a verba sai. Se o empreiteiro privado se mexer, os recursos aparecem. Se ninguém se importar, a verba vai para outro endereço, sabe Deus qual.

Por tudo isso, cada vez que uma autoridade neste país abre a boca e dá uma informação ou explicação, é bom sempre questionar: será que é verdade? Será que está certo? Ou, dadas as circunstâncias, dados os motivos ocultos, tudo o que está sendo dito é apenas relativamente honesto?

Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco. E-mail: sandra_c@ig.com.br

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.