Existe vin du Japon?

Perto do monte Fuji, uns poucos hectares plantados com uma uva brancanativa do Japão, a Koshu

Luiz Horta, blog.estadão.com.br/blog/luiz-horta,

31 Março 2010 | 18h15

Parece um sonho daqueles mais coloridos de Akira Kurosawa: vinhedos perto do Monte Fuji, com a placidez do cenário e uma uva autóctone, a Koshu. Foi embalado por encantamento imaginário assim que o magnata francês Bernard Magrez se associou a Yuji Aruga, terceira geração da vinícola Katsunuma. O perfil dos dois aparece no rótulo, de modo imponente. A propriedade minúscula que exploram em conjunto tem 0,5 hectare. Magrez tem propriedades mundo afora. Seus vinhos mais famosos saem, obviamente, do seu Château Pape-Clément, cru de Graves, Bordeaux. Tratou a Koshu com o zelo dedicado a uma grande uva. Deu bom resultado.   A Koshu existia antes da investida franco-nipônica. Desde o século 16 os japoneses conhecem vinho, levado por jesuítas portugueses. Só passaram a produzi-lo (e se interessar por ele) na dinastia Meiji, na segunda metade do século 19. O país é bem impróprio para a vinicultura. O inverno é bom, bem frio, eventualmente gelado. O verão, no entanto, assolado pelas monções, tem umidade, terrível para as uvas no momento que mais precisam de sol e secura. Os solos são fracos em drenagem, próprios ao cultivo do arroz. A uva apodrece. Os vinhedos que circundam o distrito de Yamanashi a "Bordeaux japonesa", e representam 95% do vinho do país, são plantados em sistema de pérgula treliçada - aquele modo de fazer da planta uma trepadeira, num túnel embaixo da qual dá para sentar. Só as raízes estão no chão. O restante flutua em caramanchões com estrutura de madeira.   Aruga já fazia vinhos de qualidade, vinhos doces, inspirados nos Madeiras portugueses, o que aparece nos nomes de seus rótulos, como "Aruga Branca Envelhecida" e "Aruga Clareza".   A crítica britânica Jancis Robinson deu o alerta recentemente: a Koshu está de olho no mercado europeu, quer chegar versátil como uma nova Grüner ou Riesling, combinando com tudo. Em viagem ao Japão ela provou dezenas de vinhos e gostou. O problema para o europeu (e para nós) é o preço de garrafas importadas de tão longe e de um mercado sabidamente caro como o japonês.   Dono de castelos na Europa; uva de que ninguém ouviu falar; vinho japonês; elogios da crítica internacional, parece brincadeira de 1º de abril. Xii, hoje é 1º de Abril! Mas é tudo verdade. E o vinho é muito bom. Com preço de Bordeaux...               Magrez-Aruga Koshu 2007 No nariz, lichia, flores brancas e marmelo. Na boca, acidez certeira, que implora por algo salgadinho. É austero, elegante, reservado, sem protagonismo. Aparece só quando necessário, treinadíssimo. Deixa a comida brilhar e a realça. Um vinho-gueixa. R$ 390 (Importado pela Grand-Cru tel.3062-6388)   ** O vinho não foi vendido no Japão. A safra 2007, de 2 mil garrafas, está esgotada. A loja Bernard Magrez não tem previsão de novas safras. O vinho está na carta do restaurante Sushi-Yassu (R$ 490)               TUDO NO MESMO IDIOMA   Sashimi e sushi A comida japonesa é repleta de sustos para os vinhos. O vinho de Koshu ao lado vai bem enfrentando alguns deles. Não por ser igualmente japa, mas por ter as virtudes necessárias para a harmonia (parece discurso do wine-do, o caminho do vinho). Para acompanhar o peixe cru é fácil. Basta não ser tinto, pois os taninos ficam amargos e agressivos   Kombu Com a alga seca, a coisa se complica. Quando há doçura no vinho, o encontro valoriza o marinho que ainda mora na fina folha seca. Algumas vezes esse oceano reaparece como um gosto de maresia na boca. O kombu não ama muito os vinhos demasiado doces, nem untuosos demais, nem os secos até o osso. É exigente, a alga   Wasabi Aqui o jogo é duríssimo. Essa pequena bolinha de pasta verde é capaz de fazer um estrago inesquecível nos vinhos. Como naquelas lutas de sumô em que os adversários se medem longamente antes de um rápido e decidido empurrão, o wasabi dá um safanão irremediável nos vinhos. Melhor mesmo é um gole d’água ou de cerveja, para respirar   Shoyu Sal e vinho não são grandes amigos. Mas vinhos brancos bem ácidos e minerais parecem equilibrar a sensação de salinidade na língua. Shoyu usado com parcimônia não oferece problema, vira um tempero, apesar do intenso sabor da soja fermentada. Os rosados são cabíveis, desde que sem muito tanino

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