Explosão da raiva represada

A dura resposta contra Murdoch reflete a ira de políticos intimidados havia anos por seus tabloides

Dan Balz, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h41

O escândalo dos grampos telefônicos, que levou Rupert Murdoch e seu império a bater em retirada e conquistou audiências em ambos os lados do Atlântico se desenrola tendo como pano de fundo uma cultura político-midiática inflamável muito diferente daquela dos Estados Unidos.

A fúria contra Murdoch e o finado News of The World, cujos tentáculos alcançavam tanto a política quanto a polícia, reflete mais que a indignação sobre os grampos dos telefones de celebridades, políticos e, em última análise, de uma menina assassinada. A reação também reflete a ira de políticos que há muito tempo têm sido intimidados pelas táticas de tabloides agressivos e se viram obrigados a bajular poderosos barões da mídia, especialmente Murdoch, para ganhar o apoio de seus jornais e se proteger das reportagens intrusivas.

Na Grã-Bretanha, o dinheiro tem um papel menor na política do que nos Estados Unidos e os políticos têm poucas opções para efetivamente se comunicar com o público fora do filtro da mídia. A publicidade televisiva não desempenha papel importante nas campanhas porque na maioria das vezes não é permitida.

Um político americano que se sentir prejudicado pelos meios de comunicação pode comprar tempo na televisão para responder aos desafetos. Os políticos britânicos não têm essa opção e dependem da boa vontade dos jornais para obter uma cobertura favorável.

Murdoch não é o único proprietário de jornal cujos funcionários usaram métodos questionáveis em busca de influência política e histórias sensacionalistas, embora o que o News of The World fez tenha chocado até mesmo os cínicos.

Mas como o maior e mais poderoso desses donos da mídia, com uma reputação construída ao longo de três décadas, ele está pagando por seus pecados e os de sua indústria. Este escândalo fornece os meios para material para uma ampla resposta.

Aonde as investigações criminais e políticas em curso na Grã-Bretanha vão levar não se pode saber ao certo. Mas certamente vão diminuir o poder de Murdoch, o que por sua vez poderia resultar em uma mudança na postura dos políticos em relação à mídia em geral.

Nada disso quer dizer que o que aconteceu na Grã-Bretanha não poderia acontecer nos Estados Unidos, e há dúvidas sobre se o grampo de telefones não se espalhou também por aqui. Mas há poucos equivalentes nos Estados Unidos do poder e influência da imprensa britânica, da relação entre a liderança corporativa de Murdoch com os políticos britânicos ou do papel do dinheiro e publicidade na política.

Contribuindo para essa cultura está o fato de que Londres é uma aldeia, de uma tal maneira que nenhuma cidade dos Estados Unidos é. Aqui, Washington é o centro político do país, Nova York, o centro financeiro, e Los Angeles o centro do entretenimento. Na Grã-Bretanha, todo o poder é centralizado, com Murdoch sendo de longe o maior ator de mídia no palco. Porque todo mundo conhece todo mundo em uma comunidade tão pequena. Quando surge um escândalo, não leva muito tempo para serem traçadas as conexões entre os corretores do poder e os políticos.

Para compreender a natureza britânica desse escândalo, é necessário olhar para a interseção entre a mídia e a política que ocorre lá na Grã-Bretanha. Ao contrário dos Estados Unidos, os jornais britânicos ainda exercem um poder enorme. Redes de televisão são limitadas por lei no que podem fazer e dizer. Os estatutos da BBC exigem a garantia de equilíbrio no noticiário. Não existe uma cultura de televisão a cabo, como há aqui, que separa os espectadores por ideologia e oferece carne fresca diariamente aos participantes do diálogo político.

Em vez disso, esse papel é delegado aos jornais. Os diários britânicos são de âmbito nacional e, portanto, são centrais na definição da agenda política. Lá, jornais, especialmente tabloides, são, como um jornalista britânico gentilmente definiu, menos "exigentes" em sua ética e seus padrões de reportagem do que os bons jornais dos Estados Unidos.

Eles também são ruidosamente partidários e a cobertura das notícias segue a inclinação editorial do jornal de uma maneira que não ocorre aqui. O Partido Trabalhista tem seus apoiadores, entre eles o tabloide Mirror e o standard Guardian. Mas um número muito maior de jornais britânicos se inclina para o Partido Conservador, sendo o Sun, de Murdoch, o mais poderoso deles. Stan Greenberg, um especialista em pesquisas americano que trabalhou por muitos anos em campanhas do Partido Trabalhista britânico, disse que os leitores do Sun somam um quinto do eleitorado. Tal alcance e poder potencial é inimaginável nos Estados Unidos, razão pela qual o apoio de Murdoch foi tão cobiçado por políticos britânicos.

Murdoch apoiou o governo conservador de Margaret Thatcher e, com menos entusiasmo, o de seu sucessor, John Major. Políticos do Partido Trabalhista ainda se lembram da cobertura e dos editoriais do Sun atacando Neil Kinnock, líder do Partido Trabalhista, durante a campanha de 1992.

No dia da eleição, a manchete de primeira página no Sun dizia: "Se Kinnock vencer hoje, a última pessoa a sair da Grã-Bretanha, por favor, apague as luzes". Quando os conservadores inesperadamente ganharam, o Sun deu sequência com outra manchete de primeira página, que dizia: "O Sun ganhou". Alguns políticos do Partido Trabalhista jamais perdoaram o jornal pelo que ele fez.

Tony Blair, no entanto, não foi um deles. Quando se tornou líder do Partido Trabalhista, partiu para conquistar Murdoch, pensando que sem o apoio do Sun, os trabalhistas poderiam perder a eleição seguinte. Em junho de 1995, Blair voou para a Austrália para falar com a News Corp. de Murdoch.

Muitos de seus colegas do Partido Trabalhista ficaram horrorizados. Blair via as coisas de maneira diferente. Como ele escreveu em suas memórias recentes, "mais uma vez, agora, parece óbvio: o proprietário de jornal mais poderoso do país, cujas publicações até agora têm sido rancorosas em sua oposição ao Partido Trabalhista, nos convida para a cova do leão. Você vai, não é mesmo?"

Presidentes americanos, especialmente de uma época distante, procuraram a amizade e o patrocínio dos poderosos donos de jornais. Mas isso foi então. Será que os candidatos presidenciais de hoje sentiriam a mesma necessidade de voar quase ao redor do mundo para agradar a um dono de jornal hostil? A resposta é óbvia.

Fox News Channel, cujo dono é Murdoch, pode exigir a atenção dos políticos e candidatos presidenciais republicanos, mas seu alcance não rivaliza com o império da mídia de Murdoch na Grã-Bretanha.

Para Tony Blair, o namoro teve dividendos enormes. O Sun de Murdoch mudou de lado, apoiando o Partido Trabalhista em 1997 numa eleição que o partido ganhou de lavada - embora seja possível que Blair pudesse ter vencido sem Murdoch, dado o cansaço dos britânicos com os conservadores.

A questão fundamental era que Blair não estava preparado para correr esse risco.

A reputação de Murdoch como um fabricante de primeiros-ministros cresceu e a ele foi concedido respeito e acesso ao nº 10 de Downing Street, que continuou durante a maior parte da década em que o Partido Trabalhista esteve no poder.

O ex-primeiro-ministro Gordon Brown, sucessor de Blair, deu continuidade a essa corte enquanto esteve no governo. Quando sua filhinha morreu, Brown convidou editores do Sun e do Daily Mail para o funeral. Brown afirmou na semana retrasada que ele também foi vítima de hacking, com seus registros médicos e financeiros violados, Um consultor político americano que trabalhou na Grã-Bretanha cita o caso de Brown para fazer uma distinção entre a mídia americana e a britânica. É inconcebível que a mesma coisa acontecesse a um presidente americano, disse ele. Na Grã-Bretanha, contudo, isso não é considerado tão estranho.

Quando o atual primeiro-ministro britânico, David Cameron, ganhou a disputa para assumir o Partido Conservador em 2005, ele saiu em busca da lealdade de Murdoch. Era amigo de Rebekah Brooks, que era ex-editora do News of the World e, mais tarde seria chefe da News International de Murdoch. Cameron também trouxe Andy Coulson para fazer parte de sua equipe de campanha como diretor de comunicação.

Coulson também foi editor do News of the World - num momento em que os grampos de telefones ocorreram, embora negue qualquer conhecimento direto dos atos que levaram um repórter e um detetive particular para a prisão. Diante do Parlamento na quarta-feira, Cameron disse que, "com uma visão perfeita", ele não teria oferecido o trabalho a Coulson.

Brooks e Coulson foram presos na esteira do escândalo dos grampos. Cameron voou de volta de uma viagem à África para comparecer ao Parlamento e se defender, em meio ao alvoroço em torno de seu relacionamento com a cúpula do império de Murdoch, relacionamento que, sem dúvida, deve mudar nos próximos meses.

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