Extremismo palatável?

Como a direita radical europeia tenta criar empatia pela defesa agressiva de símbolos nacionais

Jamie Bartlett, Jonathan Birdwell e Foreign Policy ,

30 de julho de 2011 | 16h35

Nos últimos cinco anos, nas fortalezas da Europa civilizada, a extrema direita ensaia um ressurgimento. Partidos de direita radical obtiveram sucessos eleitorais sem precedentes em muitos países, incluindo Áustria, França, Holanda e Suécia. Movimentos de rua integrados por jovens insatisfeitos, que por uma geração quase não foram vistos, aparecem cada vez mais nas strassen, praças e bulevares. Até o dia 22, governos e forças de segurança viam essa tendência como algo preocupante, mas acreditavam na possibilidade de contê-la. Com os trágicos ataques na Noruega, isso mudou. As agências de espionagem, que passaram a década preocupadas com a Al-Qaeda, foram subitamente alertadas para uma nova e mortífera aliança.

 

 

A relação entre o ascendente extremismo de direita e a violência política tornou-se uma das principais preocupações políticas e de segurança. Os grupos de direita se tornarão alvo de um escrutínio maior e é provável que os governos reexaminem os argumentos defendendo a prescrição de alguns deles. Mas será mesmo necessário? Nos últimos seis meses, examinamos essa questão por meio de uma pesquisa de larga escala envolvendo ativistas políticos de direita e seus simpatizantes em toda a Europa. A resposta não é nada simples.

 

 

Ao longo da última década, a extrema direita europeia se tornou mais palatável. O racismo abertamente declarado e o nacionalismo fanfarrão dos anos anteriores foram descartados. Aquilo que caracteriza a nova extrema direita é uma defesa agressiva e insubordinada da cultura e da história nacional diante de um mundo em transformação, do secularismo, e até da democracia e da liberdade. Apesar de cada movimento ter suas idiossincrasias, os partidos de extrema direita estão respondendo às preocupações legítimas de muitos eleitores - pessoas a quem a globalização parece não ter beneficiado e que temem a ameaça que a imigração em massa - em especial vinda de países de maioria muçulmana - representaria para sua identidade local e nacional.

 

 

Talvez o mais importante seja o fato de esses novos partidos de extrema direita, como o Partido da Liberdade, do holandês Geert Wilders, ou a Frente Nacional, da francesa Marine Le Pen, retratarem com habilidade os políticos comuns como covardes, egoístas e escravos venais da ortodoxia e do politicamente correto. Os acontecimentos recentes - como o resgate dos bancos, a crise na zona do euro e o escândalo da News International - conferem certa credibilidade à opinião de que os políticos se distanciaram das pessoas comuns.

 

 

Essa poderosa mistura de ideias populistas e de extrema direita - com frequência recorrendo a referências históricas e culturais, como filósofos do Iluminismo e bandeiras nacionais - significou a formação de novas alianças e menor clareza na distinção entre direita e esquerda. Por exemplo: o autor de Deutschland Schafft Sich Ab (algo como A Alemanha dá cabo de si mesma), Thilo Sarrazin, destacado membro do Partido Social-Democrata alemão, de esquerda, defende no livro que o país está caminhando sonâmbulo na direção do abismo multicultural. O líder de um grupo dinamarquês de extrema direita descreveu a si mesmo como ateu marxista.

 

 

Obviamente, uma parcela significativa do eleitorado está impressionada. Marine Le Pen é a terceira colocada nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2012 na França. O Partido da Liberdade, de Wilders, é o terceiro maior na Holanda. Na Escandinávia, os Verdadeiros Finlandeses, o Partido Popular Dinamarquês e os Democratas da Suécia obtiveram os melhores resultados eleitorais de sua história nos últimos 18 meses. Os partidos de direita estão ressurgindo também na Alemanha e na Áustria, estimulando um temor atávico entre os europeus. Mais ao leste, o Jobbik é agora o terceiro maior entre os partidos da Hungria, depois de dobrar seu número de assentos na última eleição.

 

 

Talvez ainda mais significativo seja o fato de a crescente força desses partidos exercer um grande poder de atração sobre o centro político. Tanto David Cameron quanto Angela Merkel anunciaram a morte do multiculturalismo, e a proibição ao uso da burca aprovada por Nicolas Sarkozy conquistou muitos votos na França.

 

 

Abaixo da disputa política, uma nova geração de grupos nacionalistas e de direita formados nas ruas está ganhando expressão mais confiante. Na Grã-Bretanha, a Liga de Defesa da Inglaterra (EDL) empregou uma mistura de ideias populistas e de extrema direita, surgindo em 2006 para protestar contra o que considera uma invasão silenciosa da sociedade britânica por parte do islamismo. Fazendo bom uso das redes sociais, a EDL foi capaz de mobilizar entre 2 mil e 3 mil pessoas para que participassem de manifestações e diz contar com 90 mil membros no Facebook. A Grã-Bretanha não vê nada parecido desde a década de 70. (Acredita-se que Anders Behring Breivik, responsável pela bomba em Oslo e o massacre em Utoya, esteve em contato com membros desse grupo - possivelmente chegando até a participar de uma marcha em 2010 - e declarava abertamente sua admiração pelas táticas deles: queria criar uma Liga de Defesa da Noruega.) Na França, Le Bloc Identitaire é um movimento formado nas ruas que organizou festas com carne de porco e vinho na frente de mesquitas, como forma de afirmar sua defesa do caráter secular da Constituição francesa.

 

 

Em nossa pesquisa, descobrimos que tais grupos muitas vezes se veem divididos entre objetivos conflitantes envolvendo a busca por maior respeitabilidade entre seus pares e o recrutamento de novos membros. Na Dinamarca, onde realizamos um trabalho de campo na semana retrasada, a extrema direita se vê fragmentada quanto a suas posições em relação ao antissemitismo, o homossexualismo e as raças. Muitos agora se referem a si mesmos como "nacionalistas modernos" concentrados no crescimento do Islã, ao mesmo tempo que tentam se dissociar de conotações nazistas para ganhar legitimidade. É interessante notar que os comentários feitos no fórum de um dos mais novos grupos de extrema direita - o Danskernes Parti (Partido Dinamarquês) -, liderado por um jovem de 21 anos chamado Daniel Carlsen, são de que Breivik é "um lunático" e não um nacionalista, sendo também "pró-judeu" por sua participação na maçonaria.

 

 

É nesse ambiente febril que as redes de neonazistas, supremacistas brancos e fundamentalistas cristãos estão encontrando nova vida e recrutas. A direita verdadeiramente radical ainda é minúscula na Europa, mas, antes mesmo dos ataques na Noruega, os sinais de um renascimento vindouro eram evidentes.

 

 

É claro que cada grupo de extrema direita tem as próprias idiossincrasias. De fato, a primeira regra desses movimentos é não ofender sentimentos nacionais. Alguns grupos radicais de extrema direita, como os terroristas neonazistas britânicos do Combat 18, são obcecados por teorias antijudaicas de conspiração. Outros acreditam na supremacia racial e na pureza ariana. Na Escandinávia, a mitologia nórdica costuma ser incorporada por radicais desse tipo. Parte deles se mistura a hooligans, como o Orgulho Branco, de Aarhus. São esses grupos que as agências de segurança e espionagem têm seguido há muito, pois a violência é uma parte central de sua visão de mundo - uma característica importante que os distingue de outros grupos mais populares.

 

 

A direita política busca ativamente se distanciar dos grupos mais extremos. Mas existe sem dúvida certo grau de sobreposição entre ela e os radicais. Eles partilham uma afinidade pela retórica inflamada alicerçada numa crise existencial. A civilização ocidental se vê ameaçada, atacada por multiculturalistas, judeus e muçulmanos determinados a destruir a cristandade e a identidade nacional. O "manifesto" de Breivik - 1.500 páginas nas quais ele enuncia seus pensamentos, publicado na rede horas antes do massacre - ilustra tais temas com precisão. Ele explica como o marxismo cultural destruiu a identidade europeia, com a cumplicidade dos multiculturalistas. Diz que o Islã é atualmente a maior ameaça à Noruega (e à Europa) por causa de sua campanha de "guerra demográfica". Descobrimos que pensamentos desse tipo são comuns entre os grupos da Dinamarca.

 

 

Ninguém conhece a natureza exata da relação entre os movimentos de extrema direita e a violência política. Acadêmicos ainda debatem, sem resultado, se organizações islâmicas extremistas, mas pacíficas, seriam uma porta de entrada para o terrorismo.

 

 

Entretanto, todos os terroristas acreditam estar defendendo um eleitorado mais amplo, lutando por ideias com as quais os demais concordam, mas são demasiadamente ignorantes ou medrosos para combater abertamente em nome delas. Breivik publicou algo inquietante no Twitter, parafraseando o filósofo liberal John Stuart Mill: "Uma pessoa com convicção tem a força equivalente a 100 mil que tenham apenas interesses". Como a Al-Qaeda, os terroristas se veem como a vanguarda - desferindo um golpe que vai despertar as massas.

 

 

Não resta dúvida de que a probabilidade de uma pessoa como Breivik encontrar esse ambiente na Europa é maior hoje do que há uma década. E, apesar de ter agido sozinho, há certamente mais gente que partilha de suas preocupações, sua ideologia e sua crença de que, sem medidas drásticas e imediatas, a civilização ocidental estará perdida - e, assim sendo, o mundo não pode mais se dar ao luxo de ignorar essa ameaça crescente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

 

JAMIE BARTLETT E JONATHAN BIRDWELL SÃO PESQUISADORES DO PROGRAMA DE VIOLÊNCIA E EXTREMISMO DO CENTRO DE ESTUDOS DEMOS, EM LONDRES. ELES PREPARAM UMA PESQUISA SOBRE O CRESCIMENTO DA EXTREMA DIREITA EUROPEIA

 

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