Fábrica de espermatozoide

A cada batida do coração, os testículos produzem 1,5 mil espermatozoides. Seu funcionamento pode ser comparado a uma fábrica de carros. Durante anos se acreditava que os testículos funcionavam como uma linha de montagem, semelhante às criadas por Henry Ford no início do século 20. Mas experimentos recentes demonstram que alguns princípios da linha de montagem não são utilizados na produção de espermatozoides. O que levanta uma questão: será que a linha de montagem é a melhor maneira de produzir grandes quantidades de um mesmo produto?

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Em uma linha de montagem, as peças são adicionadas sequencialmente de maneira rígida e ordenada e o carro emerge pronto. É mais ou menos assim que os cientistas imaginavam que os espermatozoides eram produzidos. Cada testículo é formado por milhares de tubos chamados dutos seminíferos. Uma das pontas de cada duto é fechada e a outra desemboca no duto eferente, por onde saem os espermatozoides. É possível observar, no duto seminífero, as células germinativas, que se dividem rápida e continuamente e são fonte das células que se transformarão em espermatozoides. A cada instante uma pequena fração delas entra na "linha de montagem" e muda enquanto progride ao longo do duto seminífero. Imagine que você caminha em um desses dutos. Primeiro vai encontrar células menos diferenciadas que passarão por meiose. Adiante vai observar os espermatozoides se formando. Na ponta do tubo, emergem os espermatozoides prontos. Milhares dessas linhas de montagem, enoveladas e formando uma quase esfera de 3 centímetros de diâmetro, produzem 1,5 mil espermatozoides por segundo, sem parar, por dezenas de anos.

Agora, com a possibilidade de analisar quando cada novo elemento surge nos espermatozoides, foi descoberto como essa fábrica funciona. Na montagem de um carro, a roda é colocada sempre depois do motor. Além disso, cada passo é irreversível. Mas, na montagem dos espermatozoides, uma mesma peça surge em algumas células antes de uma outra peça, mas em outras células surge depois.

Também foi observado que muitas vezes uma peça é colocada, depois retirada e colocada novamente. O espanto dos cientistas desapareceu quando eles estudaram como essa fábrica se comporta ao retomar a produção após um trauma. Observações indicam que o modo de fabricação facilita o reinício da produção e a regeneração do sistema. Em outras palavras, parece que as linhas de montagem em nossos testículos são mais robustas que as linhas de montagem criadas por Henry Ford.

A descoberta pode parecer inesperada. Mas estranho seria se um método de produção criado faz menos de um século fosse mais eficiente que um processo desenvolvido, testado, e selecionado durante milhões de anos. Será que nas próximas décadas as linhas de montagem industriais adotarão os princípios de produção utilizados em nossos testículos?

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: FUNCTIONAL HIERARCHY AND REVERSIBILITY WITHIN THE MURINE SPERMATOGENIC STEM CELL COMPARTMENT. SCIENCE, VOL. 328

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