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Lúcia Guimarães
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Faça a coisa certa

Primeiro, a má notícia: um filme sobre jornalismo investigativo com Robert Redford (de Todos os Homens do Presidente) é um fiasco. Truth (Verdade) merecia, como disse um crítico, um ponto de interrogação no título. O filme é sobre uma reportagem mal apurada sobre George W. Bush que custou o emprego do veterano âncora da CBS, Dan Rather.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2015 | 02h00

Agora, a boa notícia: um filme sobre jornalismo investigativo com Michael Keaton é o melhor tratamento do assunto desde Todos os Homens do Presidente. Spotlight (Holofote), dirigido por Tom McCarthy, supera o filme sobre Watergate por não carregar no suspense hollywoodiano e nos manter eletrizados com o tedioso trabalho de apuração do maior escândalo da história da igreja católica no último século: O acobertamento sistemático, durante décadas, pela cúpula da igreja, do abuso sexual de crianças e adolescentes nas mãos de padres. 

Durante oito meses em 2001, o quarteto que formava a unidade Spotlight de jornalismo investigativo do Boston Globe construiu meticulosamente, através de documentos públicos, entrevistas com vítimas e advogados, a narrativa do escândalo de pedofilia que derrubou o poderoso cardeal da arquidiocese de Boston, Bernard Law. Até então, os casos de abuso sexual pipocavam aqui e ali, enterrados em seções de reportagem local, sob ferrenha oposição e campanhas difamatórias da Igreja contra as vítimas, numa cidade intensamente católica. Mais do que isso, os repórteres envolvidos, ainda que não praticantes, também tinham seus vínculos com a Igreja, por educação escolar e família. Entra em cena Marty Baron (vivido com maestria por Liev Schreiber), hoje Editor Chefe do Washington Post, que tinha acabado de chegar do Miami Herald para dirigir o Globe. Um judeu, solteiro, que não gosta de beisebol nem de Boston, nas palavras sarcásticas de um poderoso personagem advogado que ajudara a Igreja a calar vítimas com pequenas somas.

O Globe pertencia, no começo da década passada, ao New York Times, mas continuava um jornal profundamente enraizado na elitista e insular Boston. Ainda estava para enfrentar rodadas de corte de pessoal e eventualmente a venda por uma pechincha mas, felizmente, Spotlight não é um réquiem para o jornalismo impresso. É um filme sobre a ética e a tenacidade profissional. Ao contrário de tantos exemplos da representação de jornalistas no cinema, como heróis, figuras carismáticas ou porristas, o elenco encabeçado por um Michael Keaton em grande fase não seria notado se chegasse a uma festa acompanhado de Kanye West. 

A primeira de uma série devastadora de reportagens, publicada pelo Globe em 6 de janeiro de 2002, revelava a existência de 130 crianças molestadas ou estupradas, ao longo de três décadas, pelo ex-padre John Geoghan, que havia sido transferido entre paróquias com o conhecimento direto do Cardeal Law. O Cardeal vive hoje, aos 84 anos, no conforto do Vaticano, onde se aposentou de um cargo honorífico na Basílica de Santa Maria Maggiore, em 2011.

Não deixe de assistir Spotlight temendo a descrição gráfica dos horrores perpetrados por homens de batina contra crianças predominantemente desfavorecidas. O diretor e roteirista McCarthy não se abstém do uso de linguagem direta mas, em momento algum, recorre ao melodrama ou à exploração barata da nossa indignação. Um grande poder do filme é chegar a uma verdade terrível e interromper a rotina de impunidade através do trabalho de pessoas imperfeitas.

Além de encorajar a investigação que os repórteres temiam não poder levar adiante, a grande contribuição do editor Marty Baron foi compreender que revelar a corrupção sistêmica e institucional era mais importante do que revelar inúmeros corruptos do baixo clero. Não eram apenas algumas maçãs podres que podiam ser isoladas. Um truísmo sobre a corrupção que ressoa com força especial entre nós brasileiros.

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