Falou em panela de cerâmica para arroz, ele é o cara

Nakagawa Ippentou sabatina clientes, faz à mão cada peça e não entrega menos que obras de arte

Janaina Fidalgo,

04 Março 2010 | 09h49

Só Mari Hirata sabe o interrogatório que enfrentou para comprar essa panela de arroz da foto. Teve de ser indicada por uma aluna e responder a perguntas do ceramista, interessado em saber se ela fazia arroz todos os dias, para quantas pessoas e até de qual província japonesa vinham os grãos.   Nakagawa Ippentou é o cara. No Japão, pelo menos. Foi ele quem fez a panela de arroz de Hiromitsu Nozaki, um dos chefs mais famosos e o melhor fazedor de arroz do Japão. De Shiga, perto de Kyoto, Nakagawa pertence à nona geração da família de ceramistas que faz a raku - linhagem conhecida pelos bowls usados na cerimônia do chá. Modela à mão e sem torno panelas sob medida para clientes previamente indicados e aprovados em sua "sabatina".   "Ele cursou a Tsuji, uma famosa escola de cozinha de Osaka, e viu que o mais importante na cozinha japonesa era o arroz. É por esse prato que se avalia se o chef é bom ou não", diz Mari.     Sem pressa - Uma koku raku leva seis meses para ficar pronta   Ainda que, a cada ano, surja por lá um modelo elétrico de panela de arroz mais moderno que os anteriores, a referência continua sendo a de cerâmica. "Nas propagandas, eles comparam. Dizem que é tão boa quanto a de cerâmica", conta Mari.   Então, se é na de cerâmica que se faz o melhor arroz, era desta que a chef precisava. Queria mostrá-la aos alunos brasileiros durante uma aula sobre arroz, dada no ano passado na Escola Wilma Kövesi. "Tinha de levar a melhor panela que existia aqui. Não tinha graça carregar o último modelo digital."   Veja também: Modelitos de chef Uma faca para cada pegada   Quando Nakagawa soube que a finalidade da encomenda era uma aula (e ainda fora do Japão), não ficou muito feliz. "Perguntou: ‘Mas é só para fazer isso?’. E eu: ‘Não, vou usar todos os dias’. Começou a dizer que tinha certeza de que o arroz não ficaria bom. Perguntou se eu não queria levar o japonês. Ficou preocupado com o resultado."   Mari queria uma panela grande, para que todos os alunos pudessem provar o arroz feito nela. "Ele ficou insistindo que, se éramos em quatro em casa, eu só poderia levar a panela para quatro, porque era o que eu faria todos os dias."   O máximo que ela conseguiu foi uma panela para cinco - e num golpe de sorte. A peça leva seis meses para ficar pronta, e a chef viria para o Brasil antes disto. "Como ele não teria tempo para fazer especialmente para mim, ofereceu uma panela que alguém havia encomendado e não foi buscar."   A peça chegou junto de uma carta de seis páginas escrita à mão, "com pincel, não com Bic", em que Nakagawa fala dos cuidados para manter a peça e ensina a maneira correta de fazer arroz.   E o arroz nesta panela artesanal é mesmo diferente? "Ah, sim. Tem uma diferença enorme. Mas é para famílias que todos os dias comem na mesma hora. Mantém quente por bastante tempo e não fica ruim no dia seguinte."   A panela foi herdada pela irmã de Mari, Emi, que vive em São Paulo. "Tenho vontade de comprar uma, mas não tenho espaço", diz Mari, que mora no Japão.

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