Família não divulga detalhes sobre morte de Delegado

O mestre dos mestres-salas, Delegado, da Mangueira, morreu nesta segunda-feira (12), aos 90 anos. Reverenciado como o maior da história do carnaval carioca, ele estava internado havia seis dias em uma clínica na Baixada Fluminense. Há três sábados, ainda era visto no ensaio na quadra da escola de samba - o Palácio do Samba, onde na noite desta segunda seria realizado o velório. O enterro está marcado para a manhã desta terça-feira. A família não quis divulgar detalhes sobre a morte.

ROBERTA PENNAFORT, Agência Estado

12 de novembro de 2012 | 18h13

Nascido no morro em 29 de dezembro de 1921, companheiro de muitos carnavais de Cartola e Nelson Cavaquinho, Hégio Laurindo da Silva era o presidente de honra da Mangueira. Havia sido escolhido por baluartes ano passado, em substituição ao intérprete de sambas da escola, Jamelão, que morreu em 2008. O cargo, simbólico, é ocupado por figuras históricas da Verde e Rosa, com décadas de serviços prestados. No caso de Delegado, foram 36 anos só recebendo notas 10 dos jurados - o último foi em 1984, quando o Sambódromo foi inaugurado.

Há uma década, ele só desfilava no alto do carro alegórico destinado aos decanos. "Quando entro, fico lembrando do passado. E me dá aquela vontade de sair do carro e pegar a porta-bandeira para sair dançando. Levei só dez, dez, dez, não é brincadeira, não vão mais repetir", ele declarou em janeiro, por ocasião de seus 90 anos recentemente celebrados. À época, estava bem de saúde. Recebia atenção do filho único, Ézio, motorista de táxi e cantor de pagode, e de vizinhos, que ajudavam no dia a dia espontaneamente, assim como a agremiação. A data redonda também lhe rendera homenagens em outras escolas e em programas de televisão.

Delegado morava sozinho numa casinha bem simples de fachada verde e rosa num dos acessos à favela; na sala, reunia um monte de troféus e placas comemorativas concedidas pelo mundo no samba. Passava parte dos dias sentado à porta, observando o vaivém da favela. Pelas ruas, todos o conheciam; nos eventos da escola, sua presença era sempre saudada. Fumava, mas não muito. Com 1,92 metro e 70 quilos, era uma figura aparentemente frágil. Mas quando lhe pediam para sambar um pouquinho, não desapontava. Não se sabia de qualquer doença crônica. Ele contava que apenas tomava vitaminas para deixar as pernas fortes.

"Pelé dos mestres-salas", Delegado era conhecido por ser galanteador. Jamais quis se casar. O apelido, ganhou na adolescência, por "prender" as meninas com seu charme.

Viveu carnavais em várias avenidas do centro do Rio, e ganhou seu lugar na história das escolas de samba por ter inventado passos consagrados pelas gerações de mestres-salas que lhe sucederam. Como companheiras de bailado, teve porta-bandeiras como Neide, Nininha e Mocinha, as mais célebres da Mangueira.

Uma manobra famosa criou num desfile nos anos 50, na Avenida Presidente Vargas: o "parafuso da morte" consistia em vergar o tronco todo para trás e se reerguer sem tocar o chão. Nasceu quando o chapéu da porta-bandeira caiu na pista, e ele, gentil, se abaixou para apanhá-lo, sem atravessar o samba-enredo. Tinha saudade dessa época, da festa menos acelerada. O menino Hégio, filho de dançarino, nasceu sete anos antes da Mangueira e a viu ser campeã 17 vezes. Foi ritmista, virou mestre-sala aos 27 anos, e se virou como apontador do jogo do bicho e fiscal de feira. Tudo que sabia criou em casa, usando as irmãs como par, de vassoura na mão, e observando seus antecessores.

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