Fantasmas assombram sociedade do Paquistão

Sentimento antiamericano predomina em país recente marcado por guerras

Sabrina Tavernise, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

O Paquistão vive um momento emotivo, principalmente depois que o presidente americano, Barack Obama, pediu aos líderes do país na semana passada que combatessem com mais empenho os extremistas islâmicos, e ampliou o extremamente impopular programa secreto de ataques aéreos contra alvos no Paquistão.

Após o discurso de Obama, jornais paquistaneses e programas de entrevista do país se encheram de comentários sugerindo que tais exigências pudessem empurrar ainda mais o Paquistão para o desastre. "Aprovada intensificação dos ataques com drones no Paquistão", alertava uma manchete. "O Paquistão está se aproximando de um período muito difícil", disse na TV um ex-ministro das relações exteriores.

Não é difícil compreender parte deste sentimento. Que nação aceitaria outro país usando mísseis contra alvos em seu território? Mas havia algo além disso, um antiamericanismo em grande profundidade e intensidade. Para descobrir o que se passa na cabeça do Paquistão, buscamos o auxílio de um dos maiores psiquiatras do país.

Com toda a sua raiva, o que ele proporcionou não foi exatamente uma explicação, mas uma ilustração da linguagem amarga empregada por muitos paquistaneses para debater seu relacionamento com os EUA - prova viva de como a compreensão que os EUA têm do Paquistão é diferente da visão que o próprio país tem de si.

"Os verdadeiros terroristas não são os homens de turbante que vemos na Al-Jazira", disse Malik H. Mubbashar, psiquiatra da Universidade de Ciências da Saúde em Lahore. "São os homens de ternos Gucci e chapéus de estilo britânico. Terrorista é o seu grande país, madame." Pedi a ele que se explicasse melhor. "A ameaça está nos americanos, judeus e indianos", disse ele. "Trata-se de um eixo do mal supervisionado por vocês." Esta opinião não é incomum no Paquistão, mesmo que a entonação fosse especialmente áspera neste caso. Aos 62 anos, o Paquistão é uma espécie de adolescente entre os países, até na sua forma de pensar - acanhado, emotivo, culpando apressadamente os outros pelos seus próprios problemas.

O país nasceu em 1947, numa sangrenta e sofrida separação da Índia durante a qual morreram centenas de milhares. O evento traumático deixou cicatrizes profundas na psique de ambos os países, prendendo-os numa perigosa rivalidade.

Mas enquanto a Índia se fechou, eliminando seu sistema feudal e desenvolvendo sua economia, o Paquistão manteve um corrosivo sistema de privilégios e passou por décadas de turbulência política. E a Índia ainda é retratada como uma ameaça próxima no imaginário coletivo paquistanês.

"Após a partilha, nosso processo de cicatrização não foi muito bom porque não lidamos com a separação", disse Ishma Alvi, psicóloga de Karachi. Assim, é natural que as preocupações paquistanesas em relação à segurança estejam concentradas muito mais na fronteira com a Índia do que na fronteira com o Afeganistão - menor, mais fraco e tradicionalmente influenciado pelo Paquistão.

É esse foco que os americanos insistem agora para que o Paquistão mude, e a resistência dos paquistaneses não é irracional. Paquistão e Índia já travaram três guerras (ou quatro, dependendo de quem conta), e a Índia mantém uma força numerosa ao longo da fronteira. A Índia também investiu no Afeganistão, criando apreensão deste lado da fronteira.

Estes são fatos que paquistaneses como Mubbashar acreditam que a ONU e os EUA ignoram deliberadamente, enquanto buscam de maneira unilateral a satisfação dos seus próprios interesses, como ocorreu na década de 1980 durante o confronto com os soviéticos.

Washington considera agora o Taleban e a Al-Qaeda como as maiores ameaças na região, e se exaspera ao perceber que o Paquistão enxerga a situação de outra maneira. "Há um conflito de narrativas", disse Maleeha Lodhi, ex-embaixadora do Paquistão nos EUA.

Como diplomata, Maleeha usa palavras amenas. Não é o caso de Mubbashar, dono de um tipo de patriotismo que pode soar paranoico a um americano. Ele afirmou que a empresa americana de segurança Blackwater, alvo favorito das críticas, alugou uma casa vizinha à sua, e funcionários americanos tentam atrair os servos dele com doces, álcool e "lanches do McDonald"s aos domingos".

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