Fapesp faz 50 anos e mira meio ambiente

Agência estadual de fomento à pesquisa agora investe em internacionalização

MARIANA MANDELLI, ALEXANDRE GONÇALVES, O Estado de S.Paulo

11 Março 2012 | 03h06

Modelo pioneiro de agência estadual de fomento à ciência no Brasil, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) completa 50 anos com foco em três projetos de grande impacto na área ambiental: o Programa de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota) e o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

Desde 1998, o programa Biota tem mapeado a biodiversidade do Estado de São Paulo e ajudado a formular políticas públicas para a sua conservação. Está organizado como um instituto virtual que congrega cerca de 200 pesquisadores e 500 alunos de pós-graduação espalhados por 16 instituições de ensino superior e pesquisa. Sem contar 50 colaboradores de outros Estados e cerca de 80 do exterior.

Até agora, a agência investiu mais de R$ 80 milhões no programa. Como saldo, foram identificadas 1.766 espécies, a maioria, microrganismos (cerca de 62%). Mas também foram encontrados 93 vertebrados. Além disso, mais de mil artigos científicos mereceram publicação.

O coordenador do Biota e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Joly, afirma que o programa vai crescer ainda mais. "A Fapesp pretende financiar pesquisas em outros Estados onde também ocorrem os principais biomas paulistas: a Mata Atlântica e o Cerrado", explica Joly. "Afinal de contas, bichos e plantas não conhecem fronteiras políticas."

Ele também assumiu a direção do Departamento de Políticas e Programas Temáticos (DPPT) do Ministério da Ciência. Tecnologia e Inovação (MCTI). O governo federal pretende utilizar o conhecimento obtido pelo Biota-Fapesp para mapear a diversidade nacional.

Renovável. Outro projeto considerado prioritário pela Fapesp é o Programa de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), que engloba de pesquisas para aprimorar o processo de fabricação dos biocombustíveis a análises do impacto socioeconômico das lavouras para produção de energia.

O projeto para sequenciar o genoma da cana-de-açúcar constitui um desafio gigantesco. A bióloga Marie-Anne Van Sluys, da USP, recorda que o genoma da cana tem cerca de 10 bilhões de letras químicas de DNA, mais de três vezes o tamanho do genoma humano. E, além disso, possui uma redundância - trechos que se repetem - quase quatro vezes maior. "A redundância dificulta muito o trabalho", explica Marie-Anne. "É como montar um gigantesco quebra-cabeças de uma foto do céu. Não há muitas referências para juntar as peças."

Com o genoma completo, será possível acelerar muito o processo de melhoramento da cana-de-açúcar, aumentando a produtividade e diminuindo os custos.

O terceiro programa que merece destaque é o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, que pretende auxiliar na tomada de decisões relacionadas às avaliações de risco e estratégias de mitigação e adaptação ao efeito estufa.

Foram investidos, por exemplo, R$ 50 milhões (R$ 15 milhões da Fapesp e R$ 35 milhões do MCTI) para a compra de um supercomputador para modelar o clima reunindo dados sobre fluxo de umidade, calor e CO2 na atmosfera, nos oceanos e na superfície terrestre globais, algo inédito no País.

Internacionalização. Principal financiador da pesquisa no Estado que responde por 51% da produção científica nacional, a Fapesp pensa agora em se abrir para o mundo. Para tanto, pretende catapultar o número de acordos e de convênios com outros países, além de incentivar projetos que tenham mais interfaces internacionais e interinstitucionais.

"O desafio é aumentar a qualidade e o impacto da pesquisa paulista, além de elevar sua visibilidade mundial", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

A agência quer, com isso, aumentar o networking dos cientistas de São Paulo, criar possibilidades para pesquisadores estrangeiros se instalarem por aqui e mandar os brasileiros para fora do País. Há dois meses, a Fapesp organizou um simpósio em Washington, nos EUA, que reuniu pesquisadores brasileiros e americanos, com o objetivo de fomentar parcerias.

Atualmente, a agência paulista conta com parcerias com 23 agências de financiamento, 22 instituições de ensino superior e de pesquisa e 17 empresas de todo o mundo. Estão envolvidos Reino Unido, França, Dinamarca, Estados Unidos, Argentina, Canadá, Alemanha, Espanha, Holanda, Israel, México e Suíça.

Segundo Brito, a ideia é que as próximas pesquisas tenham o mesmo tipo de impacto que o Projeto Genoma provocou no mundo da ciência brasileira.

A bióloga Marie-Anne Van Sluys, pesquisadora da USP e uma das coordenadoras adjuntas da área de Ciências da Vida na Fapesp, recorda que o Projeto Genoma - que desvendou o primeiro genoma de um patógeno de plantas, a bactéria Xylella fastidiosa - qualificou inúmeros pesquisadores que se tornaram peças-chave em outros projetos. Entre eles a bióloga destaca o sequenciamento do genoma da cana (ainda em andamento) e o Projeto Genoma Humano do Câncer, em colaboração com pesquisadores internacionais.

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