Heitor Hui/AE
Heitor Hui/AE

Fascínio pelo ser vivo movia pesquisador César Ades

Precursor dos estudos de comportamento animal formou gerações e divulgou a importância da etologia

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

16 Março 2012 | 03h04

Apaixonado pelo estudo do comportamento animal, César Ades costumava dizer a seus alunos que aceitassem os bichos do jeito que eles são. Não foram raras as vezes que viu um estudante decepcionado ao concluir em sua pesquisa um certo individualismo do seu objeto de estudo em vez de um suposto altruísmo que era esperado - uma tendência a buscar características humanas em outros seres. Ensinava sempre: "O interessante não é que eles sejam parecidos com os homens, mas descobrirmos como eles são capazes de resolver os problemas de seu próprio jeito".

 

Com um discurso que fazia qualquer um se encantar tanto pela mais simples das aranhas quanto pelo mais formoso dos macacos, o professor do Instituto de Psicologia da USP deixou na quarta-feira à noite estudantes e uma geração de etólogos órfãos. Aos 69 anos, morreu em decorrência de um atropelamento seis dias antes, quando caminhava na avenida Brigadeiro Luís Antonio.

 

Nascido no Cairo (Egito), em 18 de janeiro de 1943, Ades veio para o Brasil aos 15 anos. Entrou na Psicologia na USP planejando trabalhar com gente, fazer atendimento clínico, mas ao primeiro contato com animais, nas aulas de análise experimental do comportamento e de psicologia comparada, mudou completamente de ideia.

 

"Ele foi aluno do primeiro etólogo do Brasil (Walter Hugo de Andrade Cunha), mas na verdade foi ele quem expandiu a etologia no País", afirma Francisco Dyonísio Cardoso Mendes, professor da UnB, que fez seu doutorado com Ades. "Uma vez alguém lhe perguntou qual era sua linha de pesquisa. Ele disse que era a curiosidade. E de fato era isso. Ele trabalhava com praticamente qualquer bicho. E por seu carisma, ajudou a difundir a importância de se entender o comportamento animal."

 

Em sua carreira, dizia que tinha um "fascínio pelo ser vivo" e por isso investigou as mais diferentes espécies, quebrando paradigmas sobre as capacidades de algumas delas. Mostrou, por exemplo, que as aranhas (animal que o interessava desde a infância) têm memória e são capazes de aprender. Junto com o então aluno Mendes observou a vocalização dos muriquis (ou mono-carvoeiros) - o maior primata das Américas -, concluindo que eles têm uma espécie de vocabulário com pelo menos 38 chamados diferentes. E entre cães vira-latas, descobriu que eles são capazes de aprender a "falar" o que querem, por meio de um painel com símbolos arbitrários.

 

Foi com o mestre Cunha, na pós-graduação, que retomou o interesse pelas aranhas. Em uma saída a campo, o professor mostrou uma teia de Argiope argentata e alguns truques do bicho, que, ao se balançar na teia, fica invisível. "Ele ficou muito interessado, logo se tornou especialista naquela aranha, com muito mais conhecimento do que eu tinha", diz.

 

"César sempre foi muito curioso e sempre tinha uma observação perspicaz a fazer. Era uma mente privilegiada, que estava no momento de colher as glórias", lamenta o pesquisador que conviveu por 52 anos com o antigo aluno.

Ades foi diretor do Instituto de Psicologia de 2000 a 2004 e vice-diretor de 1998 a 2000. No final de 2007, foi nomeado diretor do Instituto de Estudos Avançados, onde ficou até janeiro.

 

"Tenho sorte de ter feito o que me divertia. Mas realmente parece surreal estudar a teia de aranha em um instituto de psicologia. De repente tenho de justificar o meu ganha-pão", disse, rindo, certa vez, em entrevista à revista Scientific American Brasil. "Só que na verdade nunca deixamos de trabalhar com seres humanos. É uma perspectiva mais ampla."

 

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