Fato consumado

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), entidade que avalia os novos organismos geneticamente modificados (OGMs), também conhecidos como produtos transgênicos, ameaçou nesta semana liberar do monitoramento pelas empresas os produtos previamente aprovados para comercialização. Na quinta-feira preferiu deixar tudo como estava, mas avisou que adotaria interpretação mais flexível da regulamentação adotada.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

12 Dezembro 2009 | 00h00

A novidade ou a falta dela pelo menos trouxe de volta a queda de braço entre favoráveis e contrários aos transgênicos no Brasil, um assunto que nem sempre é discutido com racionalidade.

Muita gente é contra por pura cisma. Assim como certas pessoas acreditam que o uso de celulares pode causar câncer, há também aqueles que, apesar dos cuidados adotados, acham que o produto transgênico acarreta malefícios à saúde ou ao meio ambiente.

Para o médico e especialista em Biologia Molecular, Francisco Nóbrega, membro da CTNBio, essa oposição tem três origens. Em parte segue uma espécie de "fundamentalismo religioso-ambiental", e isso não precisa de mais explicação.

Em parte - continua - é oposição política, na medida em que as empresas da União Europeia ficaram para trás e querem proibir produtos a serem liberados para ganhar tempo. E em parte é econômica, porque atinge grandes negócios. Nóbrega observa que as indústrias químicas estão perdendo milhões e milhões de dólares com a redução do uso de agrotóxicos nas culturas de produtos transgênicos. O mesmo acontece com empresas de petróleo, porque menos combustível está sendo queimado com a redução acentuada do uso de tratores nas culturas transgênicas que utilizam o plantio direto.

Enfim, há a cegueira dos defensores do ambientalismo exacerbado. "A tecnologia dos transgênicos deveria ser batizada de tecnologia verde tal a sua coerência com os princípios de sustentabilidade", diz.

Nóbrega denuncia outra incoerência. Esse patrulhamento por parte dos fundamentalistas não existiu nem existe em relação ao desenvolvimento de cultivares convencionais. Nos últimos 50 anos, cerca de 2 mil novos produtos foram obtidos por seleção após mutagênese química, física (uso de radioatividade) ou uso de alcaloide altamente venenoso (colchicina), que bloqueia a divisão celular e interfere na separação dos cromossomos. Esses agentes aceleram mutações nos genes do vegetal de maneira aleatória, com o que aparecem muitas plantas deformadas e doentes. A variedade sadia vai rapidamente ao mercado sem a gritaria e sem o ativismo dos ambientalistas. "Mas nem mesmo esses milhares de produtos trouxeram problemas nem para a saúde do ser humano ou do animal nem para o meio ambiente", conclui.

Depois de acirrada oposição, já há mais flexibilidade em relação à nova tecnologia. A CTNBio aprovou o cultivo de 25 produtos transgênicos e está estudando a liberação de outros 11.

E, mais do que isso, os transgênicos são um fato consumado no Brasil. Há por aqui nada menos que 16 milhões de hectares cultivados com soja, milho e algodão, ou 44% da área plantada. O País é o terceiro produtor mundial do setor, atrás apenas dos Estados Unidos e da Argentina.

Confira

Freio neles - O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, assinaram na semana passada artigo que saiu no Wall Street Journal em que argumentam que finanças globalizadas exigem regulação também global.

O argumento é irrefutável. No entanto, se levado às últimas consequências, os organismos de fiscalização e supervisão também têm de ser globais.

Mas essa ideia esbarra com o veto até agora inegociável dos Estados Unidos, que não admitem que uma instituição supranacional controle os bancos norte-americanos.

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