Favorecida a demanda, a indústria ficou a descoberto

Nos meios empresariais há a expectativa de que o aumento da renda salarial de importantes categorias no próximo ano redundará numa nítida melhoria da demanda. Baseia-se na opção pró-demanda do governo Lula que conseguiu levar a economia brasileira a um crescimento importante.

05 de novembro de 2011 | 04h05

Nesta visão, fica obscurecido o fato de que aquele modelo se traduziu por uma forte deterioração da indústria nacional e por um aumento paralelo das importações. Os efeitos negativos disso se acham ocultados pelo aumento das exportações, baseado quase que apenas no aumento da demanda mundial por commodities de que o Brasil é grande produtor e na anormal elevação dos seus preços, que, em boa parte, não deverá ter caráter duradouro.

Não há dúvida de que uma elevação do salário mínimo, que poderá ser superior a 14%, terá efeito importante sobre o volume da demanda da chamada classe C, atendida pelos ditos "bens de salário". Será difícil, porém, conter as reivindicações das categorias de salários mais elevados, o que já se verifica nos dissídios das últimas semanas.

Neste ano ficou evidente a atitude do governo federal, que, diante do aumento das suas receitas, se mostrou mais inclinado a elevar seus gastos - notadamente de custeio -, sacrificando investimentos em favor de uma política de crescimento puxado pela expansão do consumo.

Os fatos dos últimos anos mostraram claramente que, num contexto de valorização da taxa cambial, a indústria nacional foi desestimulada de produzir, encontrando mais vantagens em substituir as linhas de fabricação por importações.

Diante de uma forte alta da demanda doméstica, o modelo lulista de crescimento - negativo a médio e a longo prazos - exigirá uma série de medidas para evitar, de um lado, um descasamento maior entre demanda e oferta, que alimentaria as pressões inflacionárias, e, de outro, o agravamento do déficit das transações correntes do balanço de pagamentos, aumentando a dependência de empréstimos externos, que no quadro atual só se conseguem a custo elevado.

A recuperação da produção nacional requer, além da redução da taxa cambial, diversas medidas que, se não forem adotadas, deixarão a economia nacional em sérias dificuldades. Vai ser preciso ter coragem para reduzir a carga tributária e simplificar sua regulamentação, que acarreta custo elevado para as empresas, com a finalidade de melhorar os investimentos na infraestrutura e estimular a poupança para financiar nossa indústria.

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