Fazenda ganha mais por arroba

Propriedades habilitadas a exportar para a Europa recebem até 20% a mais em relação ao valor de mercado do boi gordo

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2008 | 02h26

O primeiro passo para ingressar na tão cobiçada lista de exportadores de carne bovina da União Européia é contratar uma certificadora credenciada pelo Ministério da Agricultura, que orientará o pecuarista sobre como adequar a fazenda de acordo com os quesitos da Instrução Normativa 17. Depois a fazenda será cadastrada como Estabelecimento Rural Aprovado no Sisbov (Eras) e só então o produtor poderá solicitar a auditoria. Se estiver de acordo com todos os itens do check-list, será habilitada.A auditoria é ampla. São conferidos desde os dados de identificação da propriedade até se o número de elementos de identificação (brincos, bottons) comprados confere com o estoque e os elementos usados. Em fazendas com até 300 animais, os auditores precisam checar individualmente os animais,ver se estão com o brinco de identificação e anotar os números para conferência. Em propriedades com mais de 300 animais, deve-se anotar no mínimo 300 números e verificar a presença de elementos de identificação em 600 animais."VALE A PENA"O caminho é longo e burocrático, mas quem chegou lá garante que vale a pena. "Fui habilitado este mês e já consegui vender quase todo o rebanho para um frigorífico. Recebi R$ 12 a mais por arroba", diz o pecuarista Paulo Ferola, da Fazenda Cruzeiro do Sul, em Uberaba (MG), que abate em torno de 600 cabeças por ano.Segundo Ferola, o mais difícil não é manter o rebanho saudável e bem tratado, mas a burocracia. "O que interessa para a UE é a documentação de que todos os animais atendem às exigências em termos de sanidade", ensina. "Precisamos registrar a compra do gado, a ?brincagem?, os medicamentos, a alimentação. É preciso mostrar notas fiscais de tudo."Para manter a papelada organizada, Ferola - que faz questão de ressaltar que foi muito bem orientado pela certificadora - teve de montar um pequeno escritório, contratar um funcionário e capacitar outro. "Tenho dois funcionários só para cuidar da rastreabilidade", diz.Organizar bem a fazenda também foi a lição que o pecuarista José Ribeiro de Carvalho, de Lagoa Grande, na região de Patos de Minas, teve de aprender para habilitar a fazenda. "Temos que envolver todos os funcionários no processo. Se um animal morrer, na hora tem de pegar o brinco e dar baixa", ensina.Ele conta que não conseguiu habilitar a fazenda na primeira auditoria. "Os técnicos ficaram dois dias aqui e não me credenciaram imediatamente porque estava faltando um animal no estoque." Resolvido o problema, em agosto a fazenda foi habilitada e entrou para a lista da UE. Hoje, ele recebe em torno de 10% a mais pela arroba.DEMANDA AQUECIDAEm Goiás, o prêmio é ainda melhor. "Estou recebendo cerca de 20% a mais no preço da arroba", diz o pecuarista Fábio Porto Rodrigues da Cunha, que há três meses conseguiu habilitar suas duas fazendas, em São Luiz de Montes Belos e Juçara. Como o número de fazendas habilitadas ainda é pequeno, diz Cunha, a demanda é maior que a oferta e os frigoríficos, com dificuldade de comprar, pagam mais."É um trabalho de vários anos, desde que foi lançada a idéia do Sisbov", diz ele, que, mesmo na época em que a indústria deixou de bonificar animais rastreados, continou acreditando na importância da rastreabilidade. "Investimos na identificação física de cada animal e no treinamento dos funcionários. Montamos um sistema de informática, com um software próprio."Para Cunha, não há segredo para se manter na lista. "Basta adotar um bom sistema de gestão. Mesmo porque não basta estar em conformidade na primeira visita dos auditores oficiais. É preciso manter tudo certo, porque as auditorias são feitas a cada 60 dias."

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