Fechamento terá grande impacto na renda dos moradores do bairro

Proporção de catadores pobres passará de 50% para 87%, mostra estudo feito a pedido do governo estadual

RIO, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h03

Diagnóstico do Aterro de Gramacho feito pelo Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade, encomendado pela Secretaria de Estado do Ambiente, mostra que o fechamento do lixão terá grande impacto na renda dos moradores de Jardim Gramacho, que vivem em volta do aterro. A proporção de catadores pobres passará de 50% para 87% e, dentre esses, a situação de extrema pobreza subirá de 18% para 68%, diz o estudo de 2011.

No bairro moram 13.706 pessoas, sendo 1.217 catadores. Nos domicílios onde há pelo menos uma pessoa que vive do lixo, a renda per capita é de R$ 311. Cairá para R$ 100,9. Sem o aterro, a verba anual necessária para retirar a população da linha da pobreza e da indigência passará de R$ 2,5 milhões para R$ 9,5 milhões.

A prefeitura do Rio se comprometeu a pagar bolsa mensal de R$ 500, por seis meses, para os cerca de 1,4 mil catadores que atuavam ali. O acordo com a concessionária prevê o pagamento de R$ 1,4 milhão, ao longo de 15 anos, como verba indenizatória. Seria o equivalente a R$ 1 mil por ano para cada trabalhador. Os catadores recusaram.

"A gente quer dinheiro inteiro. Quero acabar a obra da minha casa e abrir um mini restaurante", diz Carlos Henrique Crispim, de 40 anos, 12 de lixão. Como 73,2% dos catadores ouvidos pelo Iets, Crispim foi parar ali porque não conseguia mais emprego na construção civil. Chegou a ganhar R$ 200 por dia, separando alumínio. Com o processo de desativação do lixão, que reduziu de 9 mil para 1,8 mil toneladas a quantidade de lixo lançada ali, Crispim passou a ganhar cerca de R$ 60 por dia.

Na semana passada, numa reunião entre o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, o prefeito Eduardo Paes e representantes dos catadores, acertou-se o pagamento da indenização em cota única.

Os R$ 21 milhões serão divididos igualmente - cerca de R$ 15 mil por catador. "Eles garantiram que o fechamento do aterro só acontecerá após o último catador receber o dinheiro do fundo", disse Sebastião Santos, o Tião, um dos representantes dos catadores, protagonista do documentário Lixo Extraordinário, que mostra o processo de criação do artista plástico Vik Muniz com base no lixo recolhido em Gramacho.

Para o economista Manuel Thedim, diretor executivo do Iets e coordenador do estudo, houve demora na articulação de alternativas. "Apagaram o incêndio, que era a questão do fundo, mas esqueceram da capacitação, apoio à criação de novas empresas", diz. "Se o dinheiro fosse usado de forma coletiva para estruturar uma alternativa, a chance de contribuir de forma mais consistente seria maior. Eles estão preocupados com a sobrevivência a curto prazo." / C.T.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.