'Feminino' chega ao nº 3.000 como símbolo de conquistas

Iniciada em 1953, publicação do ‘Estado’ acompanhou transformações sociais e culturais no Brasil

José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo,

30 de maio de 2009 | 18h42

O Feminino, antes Suplemento Feminino, que chega neste domingo, 31, à edição n.º 3.000, nasceu em 25 de setembro de 1953, quando O Estado de S. Paulo transformou em caderno a página feminina que publicava às sextas-feiras. Começou com 16 páginas, em formato berliner, que é o tamanho intermediário entre o formato standard do jornal e o tabloide. Sua primeira diretora, Maria do Carmo de Almeida, a Capitu, que assinava uma crônica na página 2, anunciou assim a novidade que chegava às mãos dos leitores.   "Todas as seções daquela página (a feminina) aparecem agora ampliadas. A literatura infantil ocupa duas páginas e conta, além das histórias habituais, passatempos agradáveis e educativos. O noticiário de modas, perfumes, cosméticos em geral, chegam-nos diretamente de Paris, assinado por conhecidos cronistas da imprensa parisiense. De lá recebemos também colaborações avulsas, cujos temas são da maior atualidade e atendem ao que pede a mulher moderna, pois tratam de educação, puericultura, psicologia, etc."   Capitu, que segundo sua filha Maria Thereza tirou esse pseudônimo da personagem de Machado de Assis, seu ídolo, manteve a crônica até julho de 1958, quando se despediu com um texto sobre seu trabalho e a participação da mulher no jornalismo. "Hoje, as saias são comuns nas redações...", escreveu ela, acrescentando que o jornal era uma conquista para as mulheres "como ofício árdua e heroicamente realizado".   Antes de se aposentar, em 1959, Capitu abriu espaço para cronistas como Fernando Sabino, Perseu Abramo, Nilo Scalzo, Lygia Fagundes Teles e Cecília Meirelles, alguns dos colaboradores mais famosos do Suplemento, ao lado de ilustradores e chargistas como Claudius e Jaguar. A eles se somariam, mais tarde, Carlos Vergueiro, Luiz Carlos Lisboa, e Frederico Branco.   "Grafologia: ciência auxiliar da psicologia?", este foi título de um artigo de página inteira, inaugurando uma seção que depois seria chamada de Psicografologia. A ilustração eram cartas manuscritas, para análise da letra. A página infantil, assinada por Maria Heloísa Penteado, tinha quadrinhos de Pinduca, de Carl Anderson ,e dicas de "brinquedos ao ar livre" como Chicote Queimado. A vinheta "O que é, o que é?" desafiava crianças e adultos com charadas do tipo "Tem escamas e não é peixe, tem coroa e não é rei". A resposta - Abacaxi - vinha na semana seguinte.   A capa de 24 de dezembro de 1972, edição comemorativa do n.º 1. 000, mostrava a equipe do Suplemento Feminino, com a diretora Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita sentada numa cadeira de vime com seus colaboradores - 11 mulheres e 4 homens. Na foto , entre 16 profissionais, a secretária de Redação, Maria Lúcia (Lucinha) Fragata, o chefe de Arte, George B. J. Duque Estrada e o fotógrafos Hiroto Tanaka.   "Comecei em julho de 1967 e fui editora durante 37 anos", lembra Lucinha, transferida do Jornal da Tarde, no qual editava uma página feminina. Com a aprovação da diretora, formou uma equipe nova, sem demitir ninguém. Várias redatoras e repórteres de sua época, como Berenice Santos Guimarães e Dinah Bueno Pezzolo, continuaram como colaboradoras, depois de se aposentar. "A atual editora, Roberta Sampaio, que me substituiu, já trabalhava na redação quando eu saí, em 2003", disse Lucinha. Também as repórteres Vera Fiori e Fabiana de Nadai Caso.   Economia doméstica, jardinagem e trabalhos manuais eram seções obrigatórias que foram sendo constantemente reformuladas. O Suplemento Feminino recebia de 30 a 40 cartas por dia, com elogios, críticas e sugestões. "A repercussão era tanta que nossos concursos de trabalhos manuais chegaram a ter 7 mil concorrentes", lembra Lucinha. As edições passaram a girar em torno de um assunto e especialistas foram contratados para escrever sobre temas de sua área. Um deles, o pediatra Eraldo Fiore, escreveu uma coluna por mais de 20 anos.   As leitoras também se mantêm fiéis. "Leio o Suplemento Feminino desde o tempo de minha mãe, que começou a trabalhar em jornal em 1925 e foi crítica de cinema com Guilherme de Almeida", disse Maria Thereza, filha de Capitu. Bibliotecária aposentada da Universidade de São Paulo (USP), ela continua gostando do Feminino, mas lamenta o fim de algumas seções, como a "Coisas feitas e ditas por crianças".   O Suplemento Feminino, que nos primeiros anos tinha colunas curiosas como "Livre-se dos insetos perniciosos" e "Pequenos acidentes caseiros", passou a publicar reportagens de uma ou várias páginas sobre temas e personagens famosos. Em maio de 1964, acompanhou Tarsila do Amaral em Veneza e ilustrou a matéria com uma gravura da pintora na Revista de Antropofagia.   Em dezembro de 1966, saíram duas páginas com o título "Faça você mesmo o seu cartão de Natal" e mensagens manuscritas de Chico Buarque, Geraldo Vandré, Nara Leão, Roberto Carlos e Jair Rodrigues, entre outros compositores e cantores. Vinícius de Moraes mandou um cartão com essa preciosidade: "Mais vale um bom Natal que um pontapé nas canelas". Mais comportadas eram as mensagens de Júlio Medaglia e Paulo Mendes Campos, também presentes.   O Suplemento passou a ser editado em tamanho standard e oito páginas em janeiro de 1967 e assim continuou até dezembro de 1970, quando adotou o formato tabloide. "Eu não gostava do Feminino em tamanho standard", disse Cecília Mesquita, na semana passada. Mas ela gostava da publicação do expediente e lamenta que ele tenha sido abolido da edição.   A atual editora, Roberta Sampaio, que assumiu o cargo há seis anos, observa que, embora atualmente só haja mulheres na equipe, com exceção do assistente de redação Adriano Marçal, o Feminino é um caderno também para homens. "A mulher continua tendo mais espaço, mas o homem entra nas pautas", disse a editora, apontando como exemplo uma matéria sobre andropausa (a menopausa masculina), publicada na seção de Saúde, semana passada.   "É prazeroso fazer o Feminino, tratando de temas leves no espírito do jornal de domingo, embora a gente aborde todo tipo de assunto que interesse à mulher. Em março do ano passado , a capa mostrou uma mulher nua, de perfil, com uma chamada para reportagem sobre Sexualidade explícita. A diretora Cecília Mesquita confessa ter ficado apreensiva, pensando numa eventual reação leitores. "Não houve nenhuma reação contrária, as leitores evoluíram com o Feminino", informa Roberta.   A editora trabalha em contato direto com Cecília. "Eu faço a pauta e levo para ela aprovar. Fazemos reuniões de planejamento a cada dois meses, com grande antecedência, mas às vezes a gente derruba uma pauta para colocar um assunto atual, de última hora". Cecília faz e aceita sugestões, mas é exigente e rigorosa. "Quando apresento minhas receitas, ela contribui com novas ideias", disse Berenice, responsável pela coluna de culinária. A diretora gosta especialmente de conferir os títulos. Se Roberta lhe apresenta duas opções, ela quase sempre aparece com uma terceira.

Tudo o que sabemos sobre:
Feminino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.