Ferida aberta com o motor da arte

'No espaço há coisa demais', acreditava ele, que, de modo obsessivo, enfrentava o vazio e o sentimento de fracasso

Teixeira Coelho,

03 Março 2012 | 05h04

Cabeças de pessoas menores que uma pera. Figuras humanas maiores que a norma, mas reduzidas a uma linha preta fina e incerta, de fragilidade e instabilidade assustadoras: terrível magreza, anotou Jean-Paul Sartre. Ver as esculturas de Giacometti, hoje ou então, tem sido um exercício de espanto. É como descreve Simone de Beauvoir, em Na Força da Idade, seu encontro com as obras de Giacometti, sob a Ocupação: chocante. O tamanho minúsculo de muitas delas foi o primeiro ponto visível de referência da escritora, e continua a ser, hoje. É o que realmente choca em Giacometti? A pequenez e a fragilidade?

Jean Genet sentiu onde estava a questão (sabia do que falava): "Giacometti parece querer descobrir, para desnudá-la, essa ferida secreta que existe em todos e tudo". Genet falava tanto de Giacometti como de si mesmo e de sua própria arte: a única matriz do belo é essa ferida, diferente em cada um, oculta ou à flor da pele e que cada um preserva (feroz constatação) e para onde cada um se retira quando quer trocar este mundo por uma solidão profunda mesmo se temporária.

É a revelação dessa ferida que choca, ferida insuspeita que quase ninguém quer admitir - e que Giacometti expõe com crueza. Não deixando dúvidas sobre a solidão que ela traz, Giacometti por vezes coloca cinco ou seis pequenas esculturas de humanos sobre uma plataforma como se fosse um pedaço de praça por eles atravessada, cada um em seu próprio e divergente rumo, alheio aos outros. A ferida aberta como motor da arte não foi exclusividade de Giacometti. Dois nomes de pronto vêm à mente: Francis Bacon e Lucian Freud, cada um em seu registro. "Em arte todas as ideias se equivalem", dizia Giacometti. Sim. O que interessa é o modo como cada uma se manifesta - e o modo da ferida é pouco presente numa arte contemporânea que parece evitá-lo a todo custo. Está fora de moda a ferida existencial.

Quando Giacometti encontrou Beauvoir, ele não lhe falou da ferida: disse que o problema da escultura era a recriação do rosto humano. Problema para todos resolvido. Mas Giacometti acreditava que nunca ninguém conseguira oferecer uma representação válida do rosto humano e que tudo estava por fazer. O rosto, para ele, era uma unidade indivisível; as esculturas existentes faziam rostos que podiam ser subdivididos em partes (nariz, olhos) e essas partes, cada uma, anulava o conjunto: a solução estava em propor um rosto que não pudesse ser subdividido, isto é, analisado. Sua solução foram essas cabeças minúsculas que transmitem a unidade do rosto a um "olho inteligente"(em arte, tudo se resume a um olho inteligente do lado da criação e outro do lado da recepção: não há alternativa).

E a verdade é que suas cabeças minúsculas são lancinantemente expressivas. Fortes, claras. Essenciais. Tudo está lá. A alma está lá. A ferida está lá. Nada a ver com os miniaturistas e seus retratos em grãos de arroz. "No espaço há coisa demais", ele indicou. Talvez quisesse dizer, como Sartre interpretou, que os outros escultores se excediam em suas obras. Talvez até Rodin.

Giacometti conseguiu tirar coisas do espaço, da matéria? Michelangelo também foi partidário da arte de tirar, que contrapunha à arte de acrescentar: a melhor escultura, para ele, era aquela obtida sacando matéria, não a que se faz pondo matéria sobre matéria. O fato é que Giacometti duvidou o tempo todo de sua competência para fazer o que buscava. Fazia e destruía. Os amigos às vezes salvavam algo, um pouco como os amigos de Degas "salvaram", após sua morte, as 70 e poucas peças que hoje compõem sua fama de escultor. Giacometti não se importava. E fracassava. Tinha de começar sempre do zero. Voltar sempre ao mesmo tema, como Lucian Freud ou Francis Bacon, pode não ser apenas sinal de obsessão, mas indício de fracasso, de ainda não ter chegado lá. Giacometti achava nunca ter chegado lá. A escultura é impossível. A arte é impossível. A obra é a sobra: o que se vê é o que restou de um processo irrecuperavelmente mais amplo.

Mas, quando ele conseguiu, e conseguiu mais de uma vez do ponto de vista de quem está de fora, quase por fora, como o fez? Como essa ferida aparece, por que aparece num rosto não tão terrível assim? A aspereza da matéria é em parte responsável pela sensação. Há, porém, outro aspecto, determinante e "invisível", ligado a uma estranheza não vinculada a um conteúdo, mas em tudo física: o espaço, a sensação do espaço, a distância entre a obra e quem a vê, a distância entre o rosto e o próprio corpo da figura desse rosto. E isso explica, em parte, o tamanho das peças. Sartre, no texto sobre Giacometti em Les Temps Modernes, usado na exposição do artista em Nova York (1948) e que ganha edição da WMF Martins Fontes, é perspicaz: "uma cabeça distante num corpo próximo". Algumas esculturas de Giacometti, acaso as melhores, como algumas pinturas, mostram isso: um corpo grande, como se a três metros de mim, encimado por uma cabeça que só pode estar a seis ou nove. Sartre, em seu estudo, tem uma expressão feliz: fala, a respeito de Giacometti, de um "colapso da matéria". Há, no entanto, outro colapso tão ou mais importante: o colapso do espaço. Nosso espaço certinho, renascentista, não existe mais: não sabemos mais onde está essa figura, como nos postarmos diante dela, como defini-la. O incômodo é grande - da figura e meu diante dela. E por esse incômodo a ferida aparece.

A do artista e a nossa. Quando fez a exposição em Nova York, havia 15 anos que Giacometti não mostrava nada. Mostrou, então, porque não queria que pensassem que fosse "estéril e incapaz de conseguir algo". E porque tinha medo da pobreza: precisava vender (o que não sabia fazer). O que então mostrou era, porém, como ele mesmo disse, apenas uma parte do que procurava, e que não era bem aquilo. A obra é o que sobra.

TEIXEIRA COELHO É CURADOR DO MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO (MASP) E AUTOR DE O HOMEM QUE VIVE (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS TRABALHOS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.