Festival, versão 2.0

Eventos musicais no Brasil usam a internet e outras ferramentas para buscar novos artistas e interagir com o público

Marcus Vinícius Brasil,

30 Junho 2008 | 00h00

No ano passado, o festival Nokia Trends teve entre suas principais atrações a banda australiana Van She. O curioso é que o grupo, fundado em 2005, nunca teve um álbum lançado. Esse é um dos exemplos que mostram que os grandes eventos de música no Brasil têm mudado. Tudo graças à crescente facilidade de acesso a informação proporcionada pela internet, que torna possível que grandes shows tragam gente realmente nova aos palcos brasileiros. Além da velocidade, a tecnologia incorporada por esses eventos vai além e proporciona aos seus freqüentadores uma verdadeira experiência de imersão com ferramentas e opções interativas. "O Nokia Trends é uma plataforma que capta tendências. Nossa missão é satisfazer a necessidade de um público que já consome esses artistas através da internet", diz Marcelo Câmara, um dos mentores do festival. Todo ano, obras feitas a partir de mensagens enviadas pelos freqüentadores com o celular são parte da programação. "Há 15 anos, era mais difícil para países como o Brasil se conectarem a alguns tipos mais específicos de música. Hoje, apesar de não haver uma cena tão ativa de shows quanto a de alguns lugares na Europa , eu vejo que o público brasileiro está totalmente informado sobre bandas que não excursionam com freqüência em seu país. E isso se deve principalmente à internet", conta Enric Palau, co-fundador do festival espanhol Sónar. "Mais que o MySpace, o YouTube mudou totalmente o trabalho de um curador. Quando começo a ouvir falar de uma banda que ainda não tem nada lançado, corro para ver vídeos de shows e assino o RSS do grupo" diz Ronaldo Lemos, um dos curadores do Tim Festival. Segundo Lemos, o que mudou também foi o conceito de sucesso. "Antes era só consultar três publicações impressas e dois canais de televisão. De alguns anos para cá, houve uma pulverização de opiniões, o que aumenta o desafio da curadoria. Não dá mais para prestar atenção apenas ao indie rock ou à música eletrônica. É preciso freqüentar todos essas comunidades para decidir o que vale a pena", diz Ronaldo. O Motomix, festival da Motorola que terminou no último sábado, é outro exemplo da democratização dos palcos. Desde 2007, não há uma curadoria central para a escolha dos artistas que se apresentam no evento. Através de fóruns e sites especializados, os organizadores chegaram a nomes como o do trio britânico Fujiya & Miyagi, cuja fama se deve principalmente a resenhas positivas de seu álbum em sites de música alternativa. "Participamos de discussões na internet e visitamos blogs para entendermos quais são as atuais tendências", diz Andreia Vasconcelos, uma das idealizadoras do projeto. Além da escalação internacional, o Motomix também usa a internet para caçar novidades brasileiras. Segundo os organizadores, 451 bandas de todo o país enviaram suas músicas através do site do projeto Novos Sons, que escolheu três delas para abrirem os shows no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. "O país possui uma produção imensa que está à margem dos grandes centros, e o festival tenta mapear esses artistas e trazê-los para outros públicos", diz Andreia. A banda Nancy, de Brasília, foi uma das escolhidas . Praxis, guitarrista e líder do grupo, vê no projeto "uma oportunidade excelente de divulgação. Estamos acostumados a tocar em vários buracos, assim como muitas bandas boas que há pelo país, e não têm oportunidade de mostrar seu trabalho". A interatividade é ponto forte de outros dois grandes festivais brasileiros, o Skol Beats e o Planeta Terra. Ambos contam com participação do público, tanto durante sua preparação – como é o caso do Skol, que nesse ano teve a escalação de artistas organizada com ajuda dos freqüentadores – quanto dentro do festival. Bazinho Ferraz, idealizador dos dois projetos, vê nesse tipo de integração um dos elementos que garantem o sucesso desses eventos. Segundo o presidente da B/Ferraz, produtora da festa, "mais de 15 mil pessoas participaram dos fóruns e discutiram a escalação do Skol Beats nesse ano. As pessoas deixaram de ser apenas espectadoras para se tornarem também geradoras".

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