Filhos de dona de jornal nunca fizeram teste

Felipe e Marcela foram adotados em 1976, logo após o golpe militar

, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Uma das mais ricas e poderosas mulheres da Argentina, Ernestina Herrera de Noble, proprietária do jornal Clarín, seria uma das principais atingidas pela lei de extração compulsória de amostras para exames de DNA, já que existe forte suspeita de que seus filhos - Felipe e Marcela, ambos com 33 anos - foram sequestrados pelos militares quando ainda eram bebês, durante a ditadura militar (1976-1983).

Os dois sempre rejeitaram se submeter a exames. As principais suspeitas recaem sobre Marcela, que, segundo o engenheiro mecânico Carlos Miranda, seria na realidade Matilde, filha de sua irmã, Amelia, e de seu cunhado, Roberto Lanuscú, este último, um militante do grupo cristão-nacionalista Montoneros.

Outra família, os Gualdero-García, consideram que Marcela seja sua neta. Outras 20 famílias possuem filhas desaparecidas que estavam perto de dar à luz nas datas próximas ao nascimento de Felipe e Marcela.

O advogado da família Miranda, Pablo Llonto, afirma que ao longo destes anos existiu uma "manipulação" na Justiça para atrasar o andamento das investigações e os pedidos de exames. "É uma manobra para atrasar as coisas, de forma que nada aconteça antes da morte de Ernestina, que já tem 84 anos", afirma Llonto, que também é jornalista e autor de uma polêmica biografia da proprietária do Clarín. Segundo Llonto, a adoção de Marcela foi "ilegal".

TERRORISMO DE ESTADO

Caso a Justiça comprove que os jovens são filhos de desaparecidos da ditadura o caso poderia ser enquadrado como "terrorismo de Estado".

"Se não for um caso vinculado a desaparecidos, o delito prescreve. Mas se estiver vinculado o delito não prescreve e Ernestina Noble pode ser presa", disse o advogado.

PERSEGUIÇÃO

A dona do Clarín adotou as duas crianças logo após o golpe. A primeira adoção foi a de Marcela, em maio de 1976. Segundo Ernestina, a criança foi encontrada em uma caixa colocada diante da porta de sua casa. Em julho desse mesmo ano, Ernestina também pediu a adoção de um menino, Felipe, filho de uma mulher que lhe teria entregue a criança.

Ernestina foi detida em 2002 por ordem do juiz Roberto Marquevich, que suspeitava de adoção ilegal de desaparecidos políticos. Na ocasião, a Justiça liberou Ernestina depois que seus advogados alegaram que ela possuía graves problemas de saúde.

Analistas políticos - e os principais jornais argentinos - disseram ontem que, por trás dos motivos "humanitários" da lei de exame compulsório de DNA, o governo tenta pressionar politicamente o Grupo Clarín - dono de um dos jornais mais críticos dos governos da presidente Cristina e de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner.

Ernestina assumiu o controle do Clarín quando seu marido, Roberto Noble, morreu em 1969. De la para cá, o jornal - fundado no início dos anos 50 sob proteção do então presidente Juan Domingo Perón - não parou de crescer. Nos anos 70 e 80, passou na frente de jornais tradicionais como o centenário La Nación. Dez anos depois, o grupo controlado por Ernestina ampliou sua presença no mercado argentino adquirindo canais de televisão e emissoras de rádio.

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