Fio elétrico feito de bactérias

O fundo do mar é cheio de surpresas, mas esta é inesperada. Foram descobertos longos fios compostos por fileiras de bactérias que funcionam como cabos elétricos, transportando eletricidade no solo dos oceanos.

FERNANDO REINACH, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2012 | 02h03

No fundo do mar existe pouco oxigênio. A quantidade de oxigênio no interior do solo dos mares é ainda menor e diminui rapidamente à medida que penetramos no solo. Dois milímetros abaixo da superfície, a quantidade de oxigênio já é 10% da presente na água que recobre o solo. Essa camada superior do solo é chamada oxida (com oxigênio), e o resto, abaixo dela, de anoxida (sem oxigênio).

Na oxida vive uma enorme comunidade de bactérias e outros seres que usam o oxigênio do mesmo modo que nós usamos o oxigênio do ar. Para obter energia, tanto nosso corpo como essas bactérias degradam açúcares, produzindo CO2. Esse processo gera elétrons e a energia presente neles é usada para nos manter vivos. O destino final desses elétrons é se ligar ao oxigênio, produzindo moléculas de água, num processo que os bioquímicos chamam de respiração. Por isso que pelos pulmões nosso corpo capta oxigênio e expele CO2 e água.

Mas na anoxida também vive muitos microrganismos, que também degradam açúcares e produzem CO2. Esse processo também gera elétrons, cuja energia é usada para manter esses seres vivos. Mas o destino final desses elétrons no subsolo do oceano é diferente. Como não há oxigênio suficiente para receber esses elétrons, íons sulfato (SO4--) assumem o papel do oxigênio e, ao se ligarem aos elétrons, transformam-se em moléculas de sulfito de hidrogênio (H2S). Mas isso causa um problema. O sulfito é toxico e, ao acumular no solo, mata os microrganismos. Por isso há no fundo do mar outras bactérias que retiram os elétrons do sulfito e o transformam em enxofre (S). O que esses organismos fazem com esses elétrons? Até agora, ninguém sabia.

Cientistas descobriram que, se usassem uma espécie de voltímetro e colocassem uma agulha na região oxida do solo e a outra agulha na região anoxida, era possível medir uma corrente elétrica, indicando que elétrons da anoxida estavam sendo transportados para a oxida, onde combinam com moléculas de oxigênio e formam água. Então veio a questão: de que maneira esses elétrons estavam sendo transportados do fundo do solo para a superfície?

Ao examinar o solo que liga a oxida à anoxida, encontraram grande quantidade de fios muito finos, orientados na vertical, ligando as duas regiões. Contando os fiosm concluíram que haviam 117 metros de fios por cada centímetro cúbico de solo. Essa densidade enorme de fios ligando as regiões só é possível porque cada fio tem 0,5 milésimo de milímetro de diâmetro.

Observando esses fios no microscópio, os cientistas descobriram que eles eram compostos por fileiras de centenas de bactérias. Será que esses fios estavam transportando os elétrons da anoxida para a oxida? Foi aí que fizeram um experimento que achei genial. Cortar os fios para ver se a corrente elétrica ainda era transmitida. Exatamente o que fazemos em casa se queremos saber se um determinado fio leva a eletricidade a uma lâmpada. Mas como cortar esses milhares de fios?

Os cientistas produziram um fio muito fino de metal e passaram um pedaço dele uma vez entre a oxida e a anoxida, cortando cada fileira de bactérias em um único ponto. Bastou isso para que a corrente elétrica deixasse de ser transmitida. Com ela interrompida, a quantidade de sulfito de hidrogênio aumenta rapidamente no subsolo. Dias depois, as bactérias recompunham os fios, a corrente elétrica era reestabelecida e a quantidade de sulfito diminuía novamente.

Esse e outros experimentos, como colocar filtros com buracos menores que o tamanho dos fios entre a oxida e a anoxida, demonstram que a corrente elétrica é transmitida por esses fios.

Esses resultados demonstram que essas finas fileiras de bactérias são verdadeiros fios elétricos que levam elétrons do fundo do solo dos oceanos às camadas mais superficiais, permitindo a sobrevivência de uma enorme comunidade de seres vivos em locais muito pobres em oxigênio. Mas esses fios são muito melhores que os produzidos pelos espertos seres humanos. Por serem vivos, eles se consertam automaticamente quando cortados. É o tipo de tecnologia que seria útil nesse nosso país de frequente apagões.

Imagine que são esses milhões de fios que seu pé está rompendo cada vez que você caminha em um manguezal. Você está causando um enorme apagão, rompendo uma sofisticada rede elétrica que abastece uma comunidade de microrganismos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.