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Lúcia Guimarães
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Fique frio!

O ‘vórtex polar’, uma massa fria da região ártica, resolveu se aventurar por onde não é bem-vindo

Lúcia Guimarães,

11 de janeiro de 2014 | 16h00

"Ele foi realmente educado, mas só queria saber de voltar." Perplexo, o dono de um motel de Lexington, a segunda maior cidade do Estado de Kentucky, ouviu a batida na porta e se deparou com um homem de macacão cáqui, uniforme de detento, que pediu: "Mande me prender". Robert Vick, de 42 anos, tinha acabado de fugir de uma penitenciária local e não conseguiu ir além de seis quilômetros. Quem pode condená-lo? Fazia -27°C. Mas nenhum juiz vai acusar Vick de gênio. Ele cumpria pena de 6 anos por assalto e poderia ter liberdade condicional já em março.

O que faz as pessoas agirem de maneira insensata quando o termômetro dispara não parece tão diferente do comportamento quando o termômetro mergulha. Como quem viu a cena na TV e achou boa ideia mostrar o que acontece quando se atira água fervendo para o ar em temperaturas frígidas. Acontece isto: dependendo do vento, o líquido pode congelar no ar em formas fascinantes, o que pega bem no Instagram. Ou provoca queimaduras na pele de quem atirou a água quente. Resultado: dezenas de feridos.

Na última semana, fez mais frio na sulista Atlanta, na Geórgia, do que em Anchorage, no Alasca. Todos os 50 Estados americanos, não importa a latitude, estavam sob temperaturas negativas. A culpa é do "vórtex polar", uma massa de ar da região ártica que resolveu se aventurar onde não é bem-vinda.

 

Antes mesmo de começar a causar o estrago esperado - prejuízos até agora calculados em US$ 5 bilhões e pelo menos 21 mortes -, o fenômeno atmosférico esbarrou em outra massa aparentemente intransponível: o partidarismo que faz com que eventos tradicionalmente interpretados por cientistas sejam sequestrados por ideólogos obscurantistas. Com pontualidade britânica, a Fox News, de Rupert Murdoch, começou a ridicularizar a ideia do aquecimento do planeta porque havia uma frente fria. O mentecapto-mor da turma com alergia a fatos e com amplo acesso à mídia, o empresário Donald Trump, conclamou os cidadãos a acabar com a "dispendiosa asneira" da mudança climática.

A Casa Branca foi criticada por argumentar que o vórtex polar foi passear na vizinhança de Louis Armstrong, em New Orleans, porque, com o derretimento da calota polar, as massas de ar frígido escapam e se deslocam em padrões diferentes, mais lentos. O destrutivo furacão Sandy, que devastou a costa de Nova York e New Jersey em novembro de 2012, pode ser considerado outro exemplo de catástrofe agravada por condições no Ártico, onde o aquecimento tem sido mais acelerado do que nas regiões ao sul do Hemisfério Norte.

Mas nem todas as temperaturas frígidas são iguais perante os cidadãos. Os -10°C para um morador da Flórida não fazem um morador de Dakota do Norte piscar. Na verdade, um jornal de Fargo comemorou, no fim da semana, a elevação da temperatura para -6°C. Praticamente uma onda de calor. Um passatempo meu nessas situações extremas é sintonizar rádios locais de cidades como Fargo e ouvir bravatas. No Meio Oeste, os nativos usam sua resistência ao frio como uma medalha de honra. Certa vez, uma amiga telefonou preocupada para a mãe de 88 anos em Minneapolis: "Soube que está -45°C!" e ouviu a reação blasée: "So what?" (E daí?)

O metabolismo que faz com que nosso corpo necessite de mais calorias quando a temperatura despenca tem seu equivalente na carência de um outro calor. Cozinheira medíocre, preparei uma sopa quente para um colega de trabalho no dia mais frio da semana e a reação atingiu níveis reservados a Nigella Lawson. Nosso carteiro Kenny não faltou um só dia e, quando o vimos entrar na portaria, arrastando seu carrinho, o termômetro batendo em -25°C, foi recebido como herói.

Meu transplante do Rio de Janeiro para Nova York aconteceu num janeiro distante e também recordista. Ao contrário do calor intenso, onde não há roupa adequada para a temperatura, aqui encontrei um apetrecho para proteger cada parte do corpo. Se uma simples ida ao mercado era tarefa penosa, a volta para casa ressaltava o aconchego. Nos primeiros anos, passei a associar o inverno à leitura e longas sessões de música, a contar histórias, ao prolongado convívio doméstico em que é preciso acomodar expectativas de gerações diferentes sob o mesmo teto.

Escrevo a bordo de um voo que me tirou dos -5°C e me leva à ameaça de 45 positivos. No escuro do avião, penso no bafo quente que vai me receber na cidade que insisto em chamar de minha. Mas ainda sorrio com a ideia do vento gelado que vai me receber de volta.

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