Floresta fragmentada perde 50% da biodiversidade em 15 anos

A relação direta entre desmatamento e perda de biodiversidade, sobretudo em florestas tropicais, é velha conhecida dos conservacionistas. Mas a velocidade em que a perda de biodiversidade ocorre, quando um fragmento de floresta é isolado por lavouras ou pastagens, acaba de ser calculada pela primeira vez, por um grupo de 6 especialistas ligados ao Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), localizado no Distrito Agropecuário de Manaus, no Amazonas, e hoje coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Eles compararam os dados de avifauna relativos a 11 fragmentos de 1, 10 e 100 hectares, em períodos superiores a 13 anos. E descobriram que a perda de biodiversidade não depende apenas do tamanho do fragmento isolado, mas apresenta padrões relacionados ao tempo de isolamento. A consideração de tais fatores, podem ajudar a diminuir o impacto da abertura de novas áreas agropecuárias e tornar algumas políticas de conservação mais efetivas.Os inventários de aves for realizados sistematicamente desde 1979, antes e depois de fragmentos florestais serem isolados por desmatamentos, seguidos da implantação de áreas cultivadas ou pastagens. Segundo os cálculos, um fragmento pequeno, de 1 a 10 hectares de floresta, perde 50% da riqueza de espécies em menos de 15 anos, "depressa demais para as medidas de conservação funcionarem", dizem os autores. "Para tornar o ritmo de perda de espécies dez vezes mais lento seria preciso multiplicar o tamanho do fragmento florestal por mil". O estudo - assinado por Gonçalo Ferraz, Gareth J. Russell, Phillip C. Stouffer, Richard O. Bierregaard, Stuart L. Pimm e Thomas E. Lovejoy - acaba de ser publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, no site PNAS on line. Bierregaard e Stouffer foram responsáveis pela maior parte das coletas e inventários de avifauna, enquanto Ferraz desenvolveu a metodologia para as estimativas de perda de espécies, com a colaboração de Pimm e análise dos outros dois autores. Cerca de 100 estagiários passaram pelo projeto, ao longo dos anos, desenvolvendo teses ou colaborando com os levantamentos. O estudo agora apresentado foi elaborado em um ano."Nos fragmentos florestais pequenos - de 1 a 10 hectares - as espécies desaparecem tão rápido que se torna difícil reconectá-los através de reflorestamento, antes que a maior parte de biodiversidade esteja perdida", explica Tom Lovejoy, presidente da instituição independente The Heiz Center, em entrevista à Agência Estado. "Se, mesmo assim, forem reconectados, podem recuperar algumas espécies, mas dependerão de fontes de recolonização".De acordo com Lovejoy, idealizador do PDBFF, isso significa que a fragmentação é "seríssima e deve ser evitada onde possível". Além disso, "os corredores de fauna e a conexão dos fragmentos existentes são a mais alta prioridade para a conservação da biodiversidade". A par do tamanho do fragmento isolado, o uso das terras desmatadas, que transformam o fragmento em "ilha", também pode influenciar o ritmo de perda de espécies. Para a fauna, floresta secundária é sempre melhor do que agrofloresta, que é melhor do que monocultura perene (café, dendê, fruteiras), por sua vez melhor do que pastagem, melhor, por fim, do que as lavouras anuais.

Agencia Estado,

18 de novembro de 2003 | 18h19

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